C e b o l @ - Todas as camadas do webwriting


----- Difícil conselho aos mais jovens -----

Rodrigo (Galha), 'Catch Side'   Este mês completo 42 anos. Não sou exatamente um ancião, mas também não me vejo mais como um jovem rapaz que tem toda a vida pela frente. Muito já aprendi, muito há o que aprender. Sobre alguns assuntos, contudo, já posso falar com conhecimento de causa, e é sobre um destes o tema desta semana: as escolhas que fazemos ao longo da vida e o que os outros têm a ver (ou não) com isso.

Daqui a poucos dias, por exemplo, chegará às bancas a edição de março da revista 'InfoExame' na qual há uma entrevista comigo sobre a profissão de arquiteto da informação. Para quem é leitor desta coluna, não é novidade que, quando o assunto é conteúdo para a mídia digital, abraço a causa sem restrições. Mas, hoje em dia, quarentão, preciso pensar bastante no que vou dizer, porque serei ouvido por muita, muita gente - e boa parte destes leitores tem quase metade da minha idade.

Assim, por mais que Arquitetura da Informação seja uma das áreas a que dedico mais estudo e trabalho, não posso afirmar a jovens profissionais que esta atividade, bem, justifica uma profissão. Sem diminuir sua importância, a Arquitetura da Informação é uma área de conhecimento que compreende um conjunto de técnicas, mas que não tem fôlego para ir muito além disso. Repito: entre minhas atividades está a de arquiteto da informação, sou um apaixonado pela atividade e nela está a solução para problemas de organização e localização de conteúdo em ambientes digitais. Mas, não, não posso recomendar a ninguém que aposte todas as fichas em uma atividade que é capaz de dar sustento a um profissional de 20 e poucos anos, solteiro, mas que não é capaz, por exemplo, de garantir o orçamento de um homem de quarenta anos, com um filho adolescente, que paga a prestação de um bom apartamento. Profissão é sinônimo de carreira, e carreira supõe aumentos de salário progressivos e possibilidade de crescimento. Um arquiteto da informação pode virar, no máximo, chefe de arquitetos da informação. Há louváveis exceções - conheço várias - mas são exceções, não é a regra.

Sei que, na mesma matéria da ‘InfoExame', outros entrevistados dirão que arquiteto da informação é a 'profissão do futuro', que é para investir todas as fichas na área, o velho conjunto de clichês que compõem a pauta de quem quer dar força a um novo mercado. Difícil, mesmo, será estes mesmos profissionais entenderem que o meu objetivo com uma opinião tão incômoda é idêntico ao deles - mas há que ter responsabilidade quando pedem a você uma orientação, e que neste caso é preciso separar o joio do trigo e deixar o 'oba-oba' e o supostamente 'moderno' de lado.

No terreno dos conselhos, a situação é, às vezes, a inversa. Há dois anos, um aluno se me chamou a atenção em meu curso de Webwriting e Arquitetura da Informação. Ele estava retomando o curso de Comunicação Social e, enquanto as aulas não começavam, havia se inscrito no meu curso. A questão é que o rapaz era muitíssimo talentoso, um dos melhores que já haviam passado pelas minhas turmas. Decidi que iria ajudá-lo da forma que pudesse e, por sorte ou destino, uma das produtoras web de grande porte do Rio de Janeiro estava precisando de um estagiário. Meu aluno concorreu à vaga e pronto: lá ia ele rumo ao sucesso.

Deixa estar que eu sabia desde o início que ele fazia parte de uma banda e que ela estava prestes a decolar. Ele era o baterista e, pelo que parecia, todos no grupo levavam muito a sério o trabalho. Conversávamos sobre o assunto, mas sempre de forma enviesada; afinal, eu o estava ajudando a furar um mercado de trabalho.

Poucos meses depois, recebi um longo e-mail em que meu aluno pedia um conselho bem delicado. Prestes a renovar o estágio, ele estava em uma encruzilhada: a banda o absorvia cada vez mais e tudo indicava que ela ia estourar. A pergunta era óbvia: eu achava que ele devia largar o estágio e apostar de vez na banda?

Para quem não sabe, tenho um filho de 12 anos, dando os primeiros passos na adolescência, e não é difícil imaginar que engasguei. Ainda assim, lembrei de tudo o que havíamos conversado ao longo de tantos meses, e escrevi um dos e-mails mais sinceros da minha vida: aconselhei que ele se investisse na empreitada, e que, a qualquer momento, eu estaria ali, pronto a ajudá-lo novamente. E foi o que ele fez.

Na semana passada, o Rodrigo - ou Galha, seu apelido - me chamou pelo msn. Há duas semanas, a Catch Side, sua banda, tocou no Canecão, como parte da turnê nacional; pouco antes, eles haviam aparecido no 'VideoShow' - está na Globo.com para quem quiser comprovar - e o novo cd sai este mês. Mais do que respirar aliviado, fiquei muito, muito feliz. Da mesma forma, se algum dia eu encontrar alguém que seguiu meu conselho da 'InfoExame', notou que Arquitetura da Informação' é apenas mais uma ferramenta para ingressar com sucesso na área de Comunicação Digital e foi em frente, adquirir outros conhecimentos, também vou ficar tranquilo.

Aos (quase) 42 anos, percebo que, entre outras coisas, ficar mais velho não é saber qual conselho é o mais correto a dar, mas sim ter coragem de evitar todos os clichês e deixar o coração falar - o que queremos, tantas vezes, que os outros façam conosco.

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A próxima edição de meu curso 'Webwriting & Arquitetura da Informação' acontece em abril no Rio. Para quem deseja ficar por dentro dos segredos da redação online e da distribuição da informação na mídia digital, é uma boa dica! As inscrições podem ser feitas pelo e-mail extensao@facha.edu.br e outras informações podem ser obtidas pelo telefone 21 21023200 (ramal 4).

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Esta semana, o projeto 'Jornalistas da Web', que envolve site, grupo de discussão e eventos, completa nove anos de existência. Criado por Mario Cavalcanti, o 'JW' é, hoje, o maior patrimônio que o jornalismo online possui no Brasil. Para quem (ainda) não o conhece, o endereço é www.jornalistasdaweb.com.br. Parabéns, Mario e equipe!

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Escrito por Bruno Rodrigues às 18h29
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Bruno Rodrigues é:
*autor do livro "Webwriting - Redação & Informação para a Web" *consultor em informação para a mídia digital da Petrobras *instrutor de Webwriting e Arquitetura da Informação
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