JORNALISMO É REDAÇÃO OU APURAÇÃO?
A questão é antiga, e separa o joio do trigo, quem vive do passado de quem enxerga o futuro: Jornalismo, afinal, é redação ou apuração?
Sempre esbarro nesta questão – e olhe que minha área é a mídia digital! Mas há tempos já deu para perceber que a eterna questão das redações esfumaçadas sobrevive e chegou à era do Jornalismo Online. Infelizmente.
Papo vai, papo vem, em toda entrevista que fazem comigo – como a do novo portal Newwws.com.br (vale uma lida depois) – citam o Jornalismo como sinônimo de redação. Eu respiro fundo e corrijo a observação.
Para mim, é de uma profunda pobreza de espírito associar – diretamente, é claro – a atividade jornalística à redação. E é perigoso, também.
Não é todo mundo que escreve (e é publicado) que é jornalista. Alguma novidade até aí? Nenhuma. Mas, bem sabemos, esta é uma questão tão batida quanto mal-resolvida. E, portanto, tremendamente escorregadia.
Não há um redator empresarial, por exemplo, que não tenha passado pela clássica situação em que um gerente qualquer diz à queima-roupa que ‘se tivesse tempo, escreveria uma matéria’. Engolimos essa e outras mais, e vamos em frente.
Se ele poderia escrever? É claro que sim. Digo escrever, redigir. Mas pára por aí. Mesmo assim, poderia até sair um texto razoável. É exceção? Ah, sim, claro que é – mas longe de ser impossível um gerente produzir um bom texto.
Muito cuidado com o que valorizamos em nossas atividades! Um jornalista não é jornalista porque ele tem um bom texto.
Como eu disse à Newwws:
“(...) É o cúmulo, em pleno século 21, continuarmos a associar Jornalismo a “saber português”. (...) Assim como outros conhecimentos básicos, o “saber a língua” é essencial. Mas este é o feijão-com-arroz da atividade. O que faz do jornalista um profissional único é a capacidade de apuração; este, sim, é o conhecimento e a técnica que se aprende e desenvolve, e aquele que tem poder de transformar a sociedade. Se o jornalista continuar a focar apenas na redação, esta será uma atividade sem futuro (...)”.
Complementando que eu disse, Jornalismo é páreo, sim, para Medicina ou Direito, desde que o profissional assuma que o principal em sua profissão é o talento e a técnica da Apuração (coloquemos em letra maiúscula, mesmo, ela merece).
Não acredito na sobrevivência do Jornalismo como ‘fabriqunha de textos’. O texto jornalístico é a conseqüência, o pôr no papel o que foi apurado. E ponto final. O que faz do jornalista um profissional único e fundamental é a apuração. Estilo? Talento? Claro que são importantes, amigos, mas não vamos cair na armadilha do olhar para o umbigo, sempre.
Esta mesma visão eu tenho do Jornalismo Online que, para mim, é um conjunto de novas ferramentas para se apurar e divulgar uma informação. Definitivamente, Jornalismo Online não é sinônimo de Webwriting, minha área de pesquisa e dedicação diária. Texto deste lado, apuração do outro, seja na mídia impressa ou na digital. São como pai e filho, sempre respeitando a hierarquia, cada um sabendo o seu lugar.
Às vezes, penso que falta ao jornalista pensar em quão especial ele é. Seria uma questão de ego ou de bolso?
Escrito por Bruno Rodrigues às 15h19
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|