C e b o l @ - Todas as camadas do webwriting


Escrito por Bruno Rodrigues às 15h22
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----- Sobre Jornalismo Online: entrevista & texto -----

  Para os leitores do último post deste blog não ficarem no vácuo: seguem a entrevista que a talentosíssima Bia Mansur fez comigo para o site 'Jornalistas da Web', por conta do evento 'O Mercado e o Ensino de Jornalismo Online' - promovido no final de fevereiro no Rio de Janeiro -, e o texto publicado no 'Comunique-se' naquela mesma semana, em que faço quase um desabafo sobre o que acho do mercado de jornalismo online versão 2008.

Leiam e vejam se concordam: alguém tem que fazer o trabalho sujo de vez em quando, certo? ;-)

Com a palavra, Bia Mansur: 

1) O que se espera do novo profissional da comunicação?

Curiosidade por todas as mídias, as tradicionais e a digital, e uma grande vocação para lidar com informação, seja em sua elaboração ou veiculação. Além disso, é preciso envolvimento: um profissional de Comunicação que não está 'imerso' na evolução das mídias não tem futuro.

2) Mas quem é este novo profissional da comunicação na realidade?

É quem pensa o contéudo como algo único, mas multifacetado. Por isso, sua missão é adaptar a informação às diferentes plataformas onde ela será veiculada. Atenção: chamo de conteúdo um texto institucional , um anúncio para tv ou uma campanha de marketing da web. É preciso entender que as plataformas se modificam e se sucedem - a missão do profissional de Comunicação, seja ele publicitário, jornalista ou de mídia digital, é enxergar o potencial de cada informação nestes ambientes, não apenas virar um expert no aspecto tecnológico de cada um deles. As tecnologias passam, a visão apurada é que fica.

3) Qual é o maior desafio para este profissional na era digital?

Entender que ninguém é pau para toda obra. Quando me formei, há mais de 20 anos, uma das grandes 'vantagens' vendidas sobre o profissional de Comunicação é que ele poderia circular facilmente em todos os ambientes de seu mercado de trabalho. Isso nunca foi exatamente verdade - seria tão fácil assim, qualquer um fazer o que um comunicólogo faz, seja qual for sua área? Essa visão desvaloriza nossa profissão. Ninguém faz tudo. É preciso especialização. O generalista me incomoda - é sempre aquele que diz que sabe de tudo um pouco, mas não sabe nada profundamente. Na mídia digital - ainda bem – valoriza-se cada vez mais o especialista. Isso é ótimo! A questão maior, contudo, é salarial. Se não se valoriza o nicho em que trabalha, o mercado tende a pagar pouco - é simples assim, as empresas são um espelho dos profissionais. Percebo que quem trabalha nesta área precisa se valorizar mais, fugir do 'sou pau para toda obra'.

4) No Brasil, são poucas as universidades que buscam diferenciar as grades e oferecer um programa específico para quem deseja se especializar em jornalismo online. O que se pode observar são projetos isolados, de professores conhecedores do assunto e alunos ávidos por conhecimento. Exemplo disso é o Gjol da UFBA. Como o estudante pode preencher esta lacuna? Especialização acadêmica ainda é um sonho distante, ou já existe alguma iniciativa no Brasil?

Ao contrário de muitos, não vejo o jornalismo online como, por exemplo, uma especialidade do curso de Comunicação, algo que tenha vindo para ficar, como Rádio & TV, Cinema, Jornalismo ou Publicidade. No máximo, vejo, em alguns anos, o JOL sendo absorvido por Jornalismo. Como Pós, o.k., mas aí é outra história, é pesquisa. Não aconselho ninguém a apostar todas as fichas em JOL como ganha-pão. É óbvio que eu gostaria de dizer o contrário. O trabalho que alguns profissionais desenvolvem, como o Marcos Palácios, da Facom da UFBA, é para se acompanhar de joelhos! Mas é pesquisa, área acadêmica, outro barato. A vertente acadêmica é algo muito importante e especial, não é para todos. Como mercado de trabalho, o JOL é muito reduzido. As especializações de mídia digital que vão rechear a conta do chefe de família de amanhã - e fazer com que ele/ela possa sustentá-la - não passam pelo JOL, com raríssimas exceções, como a dos portais, onde não cabe todo mundo. Pé no chão, gente! Os grandes salários em mídia digital estão nas áreas de mobile, em marketing digital das grandes empresas e nas agências de publicidade. 

5) Listas de discussão, sites específicos para jornalistas da web, seminários e debates com profissionais renomados não seriam a nova cara do ensino de JOL no Brasil?

São, em sua nova cara. Por isso estes fóruns estão sendo tão valorizados agora. A cena da mídia digital mudou e o JOL precisa acompanhá-la. Não dá mais para você usar o twitter e achar que por isso você é o máximo, e acreditar que é por aí que se pavimenta uma trajetória profissional. Olhe para o cliente. Veja se ele precisa disso. Veja se você precisa disso tudo. Separe joio do trigo. E, principalmente, tenha senso crítico. Deixar escapar um 'uau...' a cada nova tecnologia de informação que surge, nos torna, comunicólogos da mídia digital, um bando de carneirinhos. Alguém já teve coragem que fazer o caminho oposto, encarar os grandes da tecnologia e reclamar 'ô amigo, meu cliente, meu leitor, precisa é disso, não dessas miudezas, vamos parar de enrolar?' (risos).

6) A internet é um veículo novo se comparado a outros campos de atuação do jornalista como rádio, TV, jornal impresso. Inclusive, muitos profissionais que atuavam
nestes meios foram “sugados” por portais como G1, iG, Terra. Existe o perigo de se misturar as estações e fazer mais do mesmo? O Brasil tem efetivamente jornalismo online?

Há o risco da mistura, sim, mas é natural. Jornalismo é uma coisa só, sim, mas há as diferenças, e já ficou para trás quem acha que elas não são relevantes. O bom profissional de JOL, por exemplo, é aquele que abraça e persegue as mudanças. 

7) Muito se fala da convergência de mídias na internet. A cada dia são criadas novas ferramentas que ajudam na divulgação da notícia. Texto, foto e vídeo nunca
foram tão usados nos jornais online. Mas o jornalista sabe usar de forma satisfatória estes coringas? O conteúdo não acabaria se tornando mais uma opção de como adquirir a informação, e não de quanto se adquire de informação?

Exatamente. A tecnologia é forma, não conteúdo. Muito cuidado. O que permanece sempre, ao longo dos anos, é como a informação é construída. As novas tecnologias são belíssimas e muito úteis embalagens para o conteúdo, mas é ele a grande estrela. 

8) A internet tem contribuído para a rapidez com que o leitor adquire a notícia. Mas conceitos primários como objetividade, precisão e coesão não estariam se perdendo?

Se isso acontece, é culpa do profissional ou do veículo, não da tecnologia ou da mídia. 

9) Qual sua opinião sobre jornalismo colaborativo?
Blogs e câmeras digitais contribuíram para o perfil do internauta, aquele que consome notícia pela web e também quer fazer parte da apuração da notícia? Ou seria mais uma forma de estampar o nome numa página com altos índices de acesso, mal comparando às redes de relacionamento como o Orkut?

Adoro o jornalismo colaborativo. Ele mexe em como se faz o conteúdo, e isso é sensacional. Mas ele ainda está na primeira infância, aprendendo a segurar no cercadinho. Blogs & cia, sim, já estão mudando e vão mudar cada vez mais nosso mercado de trabalho. Mas, mesmo em 2008, não o levemos tão a sério, porque tudo isso corre o risco de virar um assunto risível, motivo de chacota se o colocarmos em um pedestal. Muitas iniciativas de colaboração não deram certo, os blogs começam a sair do período de modismo... Vamos aguardar. *Claro* que tudo isso veio para ficar, mas, por favor, vamos pegar leve... ;-)

10) Bruno, obviamente seu livro 'Webwriting - Pensando o texto para a mídia digital' (2000) contribuiu, e ainda contribui, para a formação da nova geração de jornalistas online. Você consegue distinguir diferenças marcantes entre o profissional de web na época do lançamento para o jornalista de agora?

Bem, primeiramente, naquela época os próprios colegas de profissão ainda questionavam se o texto para a web tinha suas peculiaridades... E eu, baseado em pesquisas, batia o pé e dizia que sim, claro! Daí surgiu o livro, o primeiro em língua portuguesa sobre o assunto. Ao lançar o segundo livro, em 2006, o cenário era bem diferente, assim como o conteúdo do livro, bem mais prático que o anterior. O assunto, então, já era considerado e respeitado há tempos - vide que 'webwriting' é verbete do 'Dicionário de Comunicação' desde 2002!

11) O que seria uma bibliografia ideal para quem busca se aprimorar na área de jornalismo online? (ou seria mais pertinente pedir uma lista de links interessantes?)

Os meus livros, o da Pollyana Ferrari e o da Luciana Moherdaui ainda continuam sendo a santíssima trindade brasileira (risos), mas também recomendo, e muito, 'Manual de Laboratório de Jornalismo na Internet', do Marcos Palacios e da Beatriz Ribas, e outro que saiu no ano passado, 'Os Jornais Podem Desaparecer?', de Philip Meyer.

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(do Comunique-se)

Jornalismo online: me engana que eu gosto

Sabe aquela cena absolutamente clichê em cinema, em que algo muito trágico acabou de ocorrer com o personagem principal da história e um amigo próximo ou parente tenta trazê-lo para a realidade, agarrando-o pelos ombros e gritando: ‘você precisa aceitar que isso aconteceu, você precisa!’.

Ontem à noite, ao participar no Rio de Janeiro – com transmissão via webcast para todo o Brasil – como palestrante do Seminário ‘O Mercado e O Ensino do Jornalismo Online’, promovido pelo site ‘Jornalistas da Web’, fiz o papel do que precisa trazer para o mundo real aqueles que querem tapar o sol com a peneira.

Para mim, não é tarefa fácil. Tenho vocação para bonzinho, sou visto como paciente, gosto de ver sempre o bom lado de tudo e quando o assunto é internet, minha tendência é falar e endeusar as vantagens da web. Mas há 1) um limite, 2) o lugar certo e 3) o público certo para minha persona ‘especialista em informação para a mídia digital’ agir.

Frente a frente a um público de jovens adultos, a maioria entre 20 e 30 anos, e também sabendo que estava falando, ainda que a distância, por um imenso público da mesma faixa etária espalhado pelo Brasil e pelo mundo, não era a hora, nem o lugar.

Minha missão, ali, como conhecedor do mercado e quarentão, era alertar o público, chamar atenção para o lado bom e o péssimo de um mercado que funciona igualzinho a qualquer outro, não é privilégio da Comunicação.

Para um auditório calado (e visivelmente incomodado), expliquei que existem dois aspectos no Jornalismo online: as características do trabalho e a situação do mercado. Sobre como o dia-a-dia do jornalista web funciona, vale a pena participar de seminários e listas de discussão, devorar livros sobre o tema e ouvir o que especialistas ao redor do planeta têm a dizer sobre uma área que ainda está em sua infância. Até aí, tudo é lindo, e é parte da rotina de quem deseja ficar em dia com um conhecimento que evolui a cada mês, literalmente.

Se deixar, fica-se congelado a vida inteira neste lado da história. Você faz graduação, mba, mestrado, doutorado e nunca encara o mercado de trabalho. São poucos, em mídia digital, que abraçam a vida acadêmica por vocação. Muitos têm – sinto dizer - é medo, mesmo.

Medo de encarar um mercado que, embora novo, é restrito no mundo inteiro. No Brasil, conta-se nos dedos os noticiosos online que periodicamente criam vagas – vagas, não uma vaga de vez em quando - que consigam absorver as centenas de recém-formados (ou até experientes) que as perseguem todo santo ano.

Além disso, a tendência, de 2006 para cá, é a fusão das redações tradicionais com as online, e neste processo todos são treinados a lidar com ferramentas de multimídia – edição de áudio e vídeo, utilização de publicadores, noções de webwriting, usabilidade e arquitetura da informação, orientação sobre blogs e criação de comunidades, lições de como lidar com o jornalismo participativo e outras ‘cositas más’.

A um público cada vez mais tenso e silencioso, toquei na ferida: dinheiro. Muitos dos que me ouviam serão, daqui a alguns anos, pais e mães de família, terão que pagar a escola do filho, a prestação da casa própria, o plano de saúde. Ninguém vive para sempre na casa dos pais e, para a maioria, morar sozinho é uma fase que dá e passa, naturalmente. E, todos sabem, as redações brasileiras não são exatamente o Eldorado em relação a salários. Fosse a realidade apenas das redações offline (enquanto elas ainda existem à parte), poderíamos ir em frente tranqüilamente, mas o mundo do jornalismo online brazuca paga mal, igualzinho ao que acontece com nossos irmãos mais velhos.

A saída? Perceber que o bom salário está 1) nas grandes agências de publicidade que, de dois anos para cá, incluíram a web como mídia lucrativa e, cada vez mais, contratam jornalistas online 2) na área de mobile, leia-se elaboração de conteúdo para celulares; e 3) na intranets das empresas (falo isso há anos), onde se paga muito bem.

Dei meu recado e passei a bola para o palestrante seguinte, quase podendo ‘tocar’ no silêncio do auditório. Fechei o papo dizendo que ‘passamos muito tempo falando do nosso filho feio e burro, é a hora de colocar na roda o filho bonito e inteligente’.

E lá fomos nós todos, palestrantes e platéia, animadíssimos, falar sobre o fantástico admirável mundo novo do Jornalismo online pelo resto da noite...

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Bruno Rodrigues é:
*autor do livro "Webwriting - Redação & Informação para a Web" *consultor em informação para a mídia digital da Petrobras *instrutor de Webwriting e Arquitetura da Informação
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