C e b o l @ - Todas as camadas do webwriting


----- Você viveu os anos 80? -----

 (do 'Comunique-se', 16/11)

Ah, o tempo... Está em cartaz, desde o início deste mês, "Podecrer!", filme de Arthur Fontes sobre os jovens dos anos 80. Meus cabelos brancos (tá bem, nem são tantos assim) não me deixam mentir: a fita foi feita sob medida para a minha geração, para quem o futuro que hoje vivemos era coisa dos Jetsons, apenas.

Ninguém é o retrato fiel da sua geração – a minha, no caso, era chamada de Geração Coca-Cola. Mas, aqui e ali, eu consigo me ver na história. Assisti ‘E.T.’ na estréia, sentado no chão de uma cinema lotado; a paixão pelos filmes do ainda-não-tão-famoso Steven Spielberg era tanta que eu
tinha – e ainda tenho – uma camiseta com os dizeres ‘Spielberg Forever’ que irritava, e muito, meu professor de cinema na PUC, defensor ferrenho do cinema nacional.

Eu era fã das novelas de Gilberto Braga, em tempo de ‘Vale Tudo’, a melhor de todas. Meu trabalho de final de curso foi sobre a obra do novelista, e ainda tive que escutar dele, ao final de uma das últimas entrevistas que fiz, o comentário para lá de emblemático, que me corrói até hoje: ‘Vou agora
escrever o capítulo em que revelo quem matou Odete Roitman...’. Mais anos 80, impossível!

Se há uma diferença entre aquela época e a que vivemos, é a tecnologia. Na infância e na adolescência, minha geração viu a tevê a cores, o telefone sem fio e o videocassete surgirem – mas pára por aí. O computador só faria parte do nosso dia-a-dia na época do estágio, lá pelo final da década.

Desde então, o mundo viu-se invadido pelo high-tech: primeiro, veio o CD, que jogou a fita cassete e o vinil para escanteio; logo após, chegou o celular e ficou mais fácil ser achado a qualquer hora, em qualquer lugar (é bom, isso?); e, então, finalmente, surgiu a web...

É na autopromoção que ‘Podecrer!’ faz ponte entre passado e presente, entre a Geração Coca-Cola e a Geração Y, a de agora. Na internet, o usuário encontra o completíssimo site do filme e vídeos, muitos vídeos – e não estou falando de trechos da fita ou de trailers, apenas. A produção do
‘Podecrer!’ contratou a Espalhe, agência de marketing de guerrilha, para criar pequenos vídeos de ficção, executados pela Conspiração Filmes e descolados da trama do filme, em que três jovens batem papo, contam casos, choram a perda da Copa de 82, comentam filmes da época áurea da ‘Sessão da Tarde’ (Jerry Lewis diz alguma coisa para você?) e, é claro, falam muita besteira. Uma delícia, portanto.

Os vídeos, no melhor estilo ‘marketing viral’, foram primeiramente plantados em sites como Youtube, Videolog.TV e Fiz TV, para depois invadirem a Rede. A idéia era que todos achassem que eram vídeos de verdade, filmados em VHS e descobertos por ‘arqueólogos digitais’. Como dois dos adolescentes são ‘globais’ – um deles está, inclusive, no ar em ‘Toma lá, dá cá’ – fica difícil acreditar, mas o que vale é a (ótima) intenção.

Como, desde sempre, fiz do século XXI a minha opção de vida – aos 16 anos eu era obcecado pelo Epcot Center, o parque futurista da Disney, acompanhei pela tevê cada minuto do lançamento do ônibus espacial Columbia, e em meu teste vocacional deu Informática e Comunicação (como lidar com isso, na época?) – não deu para ficar saudosista com o filme, que é divertido do início ao fim. Mas deu para lembrar direitinho de uma época em que o máximo em tecnologia em brinquedos era o ‘Genius’, e a mochila da Company era sonho de consumo de 10 entre 10 adolescentes.

E você, é mais século XX ou XXI, mais ‘Genius’ ou mais ‘Palm’?



Escrito por Bruno Rodrigues às 16h19
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----- Quem é o dono de uma lista de discussão? -----

(do 'Comunique-se', 09/11)

Não há nada como ficar órfão de uma lista. É como se tivessem arrancado nossas cordas vocais, via teclado. Nestes momentos, só nos resta o silêncio e a mais profunda solidão.

É raro que eu me sinta assim. Aliás, embora eu goste – e muito - de participar das discussões, é raro eu ter tempo. Mas sou minoria – multidões participam constantemente de milhares de listas de discussão espalhadas pela web brasileira, e para estes é o fim do mundo quando uma lista chega ao fim.

Há dois motivos quando isso acontece: falta de quorum participante e stress crônico a que o moderador é submetido. A questão do quorum é a mais comum; após algum tempo patinando em inscrições, a lista morre por falta de sentido. Ninguém discute, então é melhor desmontar a barraca. Isso acontece muito no Yahoo, a meca das listas de discussão.

Embora sejam a minoria, as listas que entram em erupção antes de implodir são as que mais causam barulho quando terminam e deixam traumas na alma virtual de muitos internautas. Eu mesmo participei de uma destas listas ao longo de três anos.

O tema girava em torno de histórias em quadrinhos clássicas Disney, escritas e desenhadas nos anos 40, 50 e 60 por mestres como Carl Barks, Paul Murry e Floyd Gottfredson. Composta em sua grande maioria por quarentões como eu, a lista ia muito bem, obrigado, até alguns dos participantes começarem a se alterar.

O pomo da discórdia era a atenção cada vez menor que editora Abril estaria dando aos quadrinhos Disney no Brasil. Corre a lenda que a Abril só não se desfaz da representação das hqs Disney no país por razão sentimental – afinal, a primeiríssima publicação da editora foi ‘O Pato Donald’, em 1950.

O ‘x’ da questão, delicadíssimo, era que da lista participavam dois jornalistas da própria Abril, em trabalho espontâneo de Ouvidoria, que cansei de elogiar diversas vezes. Criticar a Abril sempre foi permitido na lista – liberdade de expressão -, mas, você há de convir, iniciar uma campanha para a Abril abrir mão dos títulos Disney aos olhos de profissionais da casa, cheios de boa-vontade, é um pouco demais – e foi. Cansado de alertar que aquele não era bem o lugar para tais manifestações, o criador e moderador da lista - que não era da Abril, vale esclarecer – acabou com a festa.

Pode, isso? Após tanto tempo, a lista era só dele? Ele teria o direito de fazer o que fez, acabar com um fórum de discussão com tantos participantes?

Para muitos, foi uma atitude autoritária, o cúmulo do absurdo. Hoje alguns acham que as regras deveriam mudar. Uma lista só poderia ser fechada pelo ‘dono’ após votação, em que a maioria concordasse em desligar o interruptor.

Mais uma: na semana passada, foi a vez de chegar ao fim, também via erupção & implosão, uma lista que há três anos ajudava o profissional de Jornalismo brasileiro a encontrar seu primeiro emprego, conseguir algo melhor na área ou se recolocar no mercado, graças à boa-vontade de coleguinhas, que postavam vagas quase diariamente. Houvesse um Panteão do Jornalismo, a criadora da lista lá estaria.

Cansada de ter que deletar, constantemente, tanta besteira travestida de mensagem, a criadora-moderadora da lista decidiu a exigir ID e CPF dos participantes, inclusive dos já cadastrados. Aí, o feitiço virou contra o feiticeiro: peraí, como assim o participante teria que se identificar? E por que, caso se negasse a fazê-lo, seria posto para fora? Criticada por uma multidão indignada, a moderadora chutou o pau da barraca.

Pode, isso? Alguém cobrar tanto de seus participantes? E, mais uma vez, ela teria o direito de fazer o que fez, acabar com serviço tão precioso?

Para mim, é uma questão ainda em aberto. Sou convidado de uma lista, ou tenho direito sobre ela? Não sei.

E você, acha que criar uma lista de discussão é plantar vento e colher tempestade? Ou quem deu sangue, suor, lágrimas e tanto carinho pelo que criou, tem o direito de encerrar a conversa para acabar com próprio stress?

Escrito por Bruno Rodrigues às 16h18
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----- Os grandes querem conversar com você -----

(do 'Comunique-se', 01/11)

O bom-senso adverte: onde termina o limite de um, começa o do outro. A idéia vale para o convívio familiar, social e profissional. Mas, e para o virtual, existe um consenso?

Há pouco mais de uma semana, sem muito estardalhaço, grandes grupos de mídia e internet dos EUA reuniram-se para divulgar uma lista de ‘princípios colaborativos’ que darão suporte e apoiarão a crescente produção de conteúdo gerado pelo usuário para a web, o chamado UGC (user generated content). Esta visão, é claro, é a de quem manda, e não a de quem cria, disponibiliza e oferece conteúdo na Rede.

Algum problema? Em um primeiro momento, nenhum. De acordo com o seleto grupo, que inclui pesos-pesados como Disney, Fox, CBS, Microsoft, Viacom e MySpace, a idéia é garantir o direito autoral de quem produz conteúdo para a internet: eu, você - e eles, é óbvio.

O pulo do gato da iniciativa são os programas que funcionam como filtro - se um adolescente produz um vídeo e sobe o material para o MySpace, no problem! Ele preparou o material, que é dele, e ponto final! Os ‘princípios colaborativos’ protegerão o copyright do rapaz, que já não se sentirá tão ‘vulnerável’.

Que esse mesmo adolescente tente, porém, subir para o MySpace um trailer inédito de um filme há muito aguardado, que ele conseguiu sabe-se lá onde. A Fox, que antes tinha um trabalho chatíssimo do ponto de vista de relações públicas – o envio de um aviso extra-judicial pedindo a retirada do material -, agora poderá encostar na cadeira e relaxar: os ‘filtros de conteúdo’ irão detectar, assim que o trailer tiver sido cadastrado para veiculação no MySpace, que o conteúdo é pirata. E, então, sem drama, o vídeo simplesmente não entra no site. Sem trabalho para a área jurídica, sem confusão com a opinião pública, tudinho automático.

O grupo que criou as regras faz questão de dizer que não está pensando apenas no seu lado, mas no do usuário, principalmente. Segundo Disney e cia., além do internauta ter agora um ‘norte’ para se guiar quando for disponibilizar material em um dos sites das empresas signatárias dos ‘princípios’, ele terá a seu dispor recursos tecnológicos muito úteis, mas que não existiam, ou não eram o foco de sites que aceitam conteúdo gerado pelo usuário.

Se antes era problema do internauta procurar ferramentas para construir e colocar no ar um material, agora ele terá o apoio e a orientação do site. Entre várias gentilezas, estaria o upgrade constante das ferramentas de publicação e a rápida solução de erros quando, por exemplo, um conteúdo apontado como pirata for, na verdade, legítimo, mas estiver
sendo bloqueado.

O principal foco da empresas é estimular – e regular – a produção de vídeos, a maravilha das maravilhas da era Web 2.0, mas dor de cabeça constante de redes de TV, estúdios de cinema e gravadoras, sempre às voltas com pirataria.

Em tese, o discurso do grupo é ‘vamos colaborar, estreitar laços’. Mas, como eu já disse, eles é que mandam, então é bom ficar de olho. Ainda assim, por mais que eu tenha tentado – e juro que me esforcei -, não consigo notar intenção ruim na iniciativa. Só a junção de megaempresas assumindo que a era do UGC chegou para ficar, e que deste tipo de conteúdo depende boa parte do futuro da Comunicação, já é um passo considerável.

Falta, agora, a adesão de outros players fundamentais, como o Google e seu agregado YouTube, mas tudo leva a crer que é apenas um questão de formalização, já que no site de vídeos mais procurado do mundo os filtros de conteúdo já começam a operar mudanças.

Sinto falta, apenas, do Brasil, sempre tão up-to-date com a web, divulgar o que está fazendo neste sentido. UOL, Terra, iG e Globo.com, pronunciem-se!

E você, vê a criação de ‘princípios’ para o conteúdo gerado pelo usuário como colaboração ou censura velada?

Escrito por Bruno Rodrigues às 16h16
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----- A música é para todos - será? -----

(do 'Comunique-se', 18/10)

Nunca um clichê esteve tão perto de virar uma questão para lá de delicada: ‘a música une os povos’. Bonito, desde que a música pertença a todos.

Que fique claro: até o surgimento da web – ou seja, ontem mesmo - a música era de quem a compunha, criava a letra, interpretava e distribuía. O consumidor pagava pelo LP ou fita cassete, depois CD, e todos eram felizes.

Todos, menos o consumidor, é claro, pois doía era no bolso de quem despendia muito do rico dinheirinho para ter as músicas de que se gostava. A gravadora, que tinha mais condições de pagar, era quem mais continuava a encher os bolsos. Capitalismo puro.

Errado? Na prática, óbvio que não. Se compositor e cantor suam tremendamente para criar uma obra, nada mais certo que receber por ela. Mas, e a gravadora?

Com a web, onde o meio físico é dispensável, as gravadoras serviriam apenas como ‘ruído’. Se não há necessidade de distribuição e a divulgação também poderia ser feita pelos próprios artistas, por que dividir o lucro por três?

Quando muitos esquentavam os motores para este novo modelo de negócios, surgiram os programinhas ‘peer to peer’, softwares que permitem aos usuários trocar arquivos. Entre tantos, o que mais fez sucesso neste ‘troca-troca’ virtual, desde o início, foi a música.

Nem é preciso dizer que todos perderam o chão, músicos e gravadoras. Agora, infolarápios ‘pirateavam’ a música, colocada na Rede por um único consumidor, multiplicando-a por mil por usuários que a copiavam gratuitamente.

Como fazer? Prender uma multidão espalhada por centenas de países, gente comum? Há dois anos, a França tentou dar o exemplo. Escolheram aleatoriamente um endereço IP de um usuário que trocava arquivos via web e prenderam o larápio – um senhor aposentado! Vitória e vexame. Este mês, mais uma tentativa, desta vez nos EUA: agora é uma mãe solteira que terá que pagar uma multa de quase 400 mil reais. Faz sentido?

É errado, e as regras do Direito Autoral estão aí para esclarecer a questão – nem é preciso chegar ao Direito Digital. Mas, acima de artistas, gravadoras e a mídia, paira a pergunta: é crime coletivo ou um novo paradigma? Se isso acontece em grande escala, e não nos ‘becos’ da web, algo novo está realmente acontecendo, ou seria o fim dos tempos?

Esta semana, a cantora Madonna – sempre ela – saiu na frente ao deixar a Warner, sua gravadora há mais de dez anos, pela empresa LiveNation, focada em promoção de shows, onde será a primeira do cast da Artist Nation – ah, sim, ela também é gravadora, mas este é apenas um detalhe.

O que Madonna fez foi assumir, como artista e empresária – ela será sócia da LiveNation, também – que é realmente o fim dos tempos (para as gravadoras) e que algo novo está realmente acontecendo (para os artistas). Em suma, que os
cantores e compositores esqueçam lucrar com suas músicas.
Elas serão ‘apenas’ commodities, e por isso funcionarão como plataforma para ganhar dinheiro onde ele está: nos shows. "O paradigma do negócio da música mudou e como artista e empresária eu tenho que acompanhar essa mudança", disse Madonna.

Fato é que, cada vez mais, acredito na idéia de que, em nenhum outro ambiente, a democracia teve tanto poder quanto na internet. Se o usuário quer, tudo muda - e é bom sair da frente!

A web é, antes de tudo, divulgação, e é preciso absorver esta idéia de vez. Alguns músicos já entenderam o recado, e estão se beneficiando disso – e olhe que eles não vêm só do mainstream pop, mas até do menos provável dos nichos: a música clássica.

A revista ‘New Yorker’ publicou na semana passada ‘The Well-tempered Web’, deliciosa matéria em que explica como compositores centenários e artistas novos do mundo inteiro estão sendo divulgados como nunca antes.

A ‘New Yorker’ destaca que, na web, pode-se, como em outros gêneros, ouvir extratos de músicas como couvert – ótimo para um primeiro contato com a música clássica -, conhecer Beethoven via Wilhelm Furtwängler – ‘sem o risco de errar a pronúncia’ – ou assistir ao vivo noites de abertura de festivais como o alemão Bayreuth. É sopa no mel, a mídia que muitos pediram a Deus.

Será, mesmo? E você, acha que a internet, para a música, é ‘coisa do demo’ ou a recriação do Jardim das Delícias?

Escrito por Bruno Rodrigues às 16h15
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----- Quem é escritor, afinal? -----

(do 'Comunique-se', 04/10)

Alterar paradigmas é uma pedreira; leva tempo e consome paciência. Coloque a internet – ou até mesmo a televisão - na rota desta missão (quase) impossível e voilà: está armada a confusão. Mais que uma pedreira, é uma cordilheira inteira a enfrentar.

Um exemplo? Diga a um grupo de escritores que autores de livros publicados na web são – errr - escritores. E que tal afirmar que um autor de novelas também é escritor? Corre-se o risco de perder a vida!

Há gente corajosa, contudo. Heróis que enfrentam o bolor do antigo para, de forma afável ou até nada sutil, esvaziar a oposição em poucos segundos.

Trago dois exemplos que prometem mudar nossa forma de encarar o escritor:

* A crítica literária Heloisa Buarque de Hollanda foi curadora da mostra ‘Blooks: Tribos e Redes na Rede’, que aconteceu com sucesso até semana passada no Rio de Janeiro. Os tais dos ‘blooks’ - books + blogs - são, como diz o nome, livros com conjuntos de posts (textos) publicados em blogs, ou que deles surgiram.

Em entrevista ao UOL, Heloisa defende que há talento e genialidade de sobra na web: " (...) existe uma enorme produção literária na Rede, que usa o recurso interativo do blog e o ambiente descentralizado da internet para desenvolver a criação literária". E completa: "qualquer pessoa pode se tornar autor".

Já ouço os gritos de "herege!". Tem coragem, a Heloisa.

* Aguinaldo Silva, autor de ‘Duas Caras’, nova novela da Globo, agora integra o cast do ‘BlogLog’, portal de diários online lançado há pouco pelo Boni. No primeiro post o novelista desabafou que, convidado a participar de um debate na Bienal do Livro do Rio, cujo tema seria ‘autor de novelas é escritor?’, não apareceu intencionalmente.

Para o autor – ou seria escritor? - a discussão já perdeu o prazo de validade; para ele é óbvio que quem escreve folhetins para a tevê é escritor.

Tem coragem, o moço. Ser blogueiro e autor de novelas é como colocar-se na rota de tiro duas vezes. Já ouço os gritos de “herege”, agora com a potência sonora de um bom home theater.

Para encerrar, cito não um exemplo, mas uma atitude também corajosa e que promete mudar - e muito - a maneira de avaliarmos uma obra literária. Mais uma vez, a mudança passa pela internet:

* A Amazon.com acaba de criar o ‘Amazon Breakthrough Novel Award’ em conjunto com o grupo editorial Penguin e a empresa de tecnologia Hewlett Packard. Em um processo seletivo para lá de inovador, a livraria virtual irá contar, na etapa inicial, com a crítica dos próprios usuários do site para avaliar obras inéditas, em inglês, enviadas por autores de vinte países. O felizardo que chegar à fase final levará para casa um contrato com a Penguin e US$ 25,000 de adiantamento.

Têm coragem, Penguin e Amazon. Achar que o leitor tem capacidade de avaliar manuscritos é colocar em xeque o olhar clínico do editor experiente. Afinal, quem dá as cartas neste jogo, quem lê ou quem publica?

Fato é que todas estas questões causam estranheza e incômodo. Leitor é editor? Livro online é livro, mesmo? Escritor de tevê é escritor?

Respire fundo: é preciso que todos nós tenhamos coragem, pois a mudança está apenas começando...

Escrito por Bruno Rodrigues às 16h14
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----- Na web, intimidade é coletivo -----

(do 'Comunique-se', 14/09)

Não chegue muito perto. Sou e sempre serei reservado. Pode conversar comigo sobre o que quiser, mas há um limite. Não sou uma cerca de arame farpado, mas tenho uma porta da qual ninguém tem a chave. O que há a esconder? Minha intimidade.

Atitude antipática, não é? Mas um dia não foi assim. Até dez, quinze anos atrás, era educado e até charmoso ser reservado. Desde então, não há mais o mínimo sentido. Sei quando minhas colegas estão de TPM porque as mulheres agora bradam aos quatro ventos, para quem quiser ouvir, sua intimidade. Ainda fico enrubescido; é uma espécie de résistence, ainda que solitária. Hoje em dia, marido e mulher que gostam de ficar sozinhos é ultrapassado, quase proibitivo. “Como assim? Vocês não gostam de fazer ‘social’?”, perguntam sempre a mim e à minha esposa. Fazer um ‘programa casalzinho’? É contramão.

Calcada no coletivo, a web só veio ampliar a idéia de que intimidade é algo seu - mas apenas por um instante, já que ela existe, mesmo, é para ser mostrada aos outros. É quase um erro de percurso: temperamento, opiniões, gostos, manias, tudo isso deveria surgir primeiro no perfil do Orkut para aí, sim, você ser avisado via e-mail. Com a bênção das ‘redes sociais’, tudo seria permitido.

Porém, quando a falta de intimidade adentra o reino das leis e do dinheiro, o que vale mesmo são as regras de educação que vovó tanto apregoava. A sociedade dá corda, mas a tesoura entre em ação quando o buraco é mais embaixo.

Vanessa Hudgens, a estrelinha adolescente do musical para tevê ‘High School Musical’, é um bom exemplo. A todos interessava que a moça, para divulgar sua imagem, agendasse entrevistas com dezenas de revistas, sites e blogs para contar o que gosta de comer e ler, qual a cor preferida, até com que roupa dorme. Mas a Disney, produtora do filme e que acaba de lançar a continuação nos EUA, subiu nas tamancas quando vieram com a notícia de que circulava na internet (arrá!) uma foto da atriz, outrora símbolo de pureza e boas-intenções... nuinha em pêlo! Pior: a foto fora tirada para o namorado, o ator Zac Efron, par romântico também na telinha. Tá bom pra você? O que começou como estratégia de marketing virou absurdo, e por pouco Vanessa não foi substituída na terceira parte da série, a ser filmada brevemente.

Quer outro exemplo de ‘esquizofrenia da intimidade’? A rede social (e virtual) americana Facebook, com quase 40 milhões de usuários, mudou a política de privacidade. Antes, ao realizar uma busca, o Google não conseguia ler os perfis dos inscritos, o site era bloqueado aos mecanismos de busca; agora, ainda há esta opção, mas não é mais a regra – a porta está aberta para quem quiser espiar. A questão, para mim, é por que os usuários estão chiando tanto. Até onde eu sei, o espírito de qualquer rede social é ‘ampliar a rede de contatos e fazer amigos’. O que aconteceu? Os usuários da Facebook querem circular de saia no joelho e gola até o pescoço em praia de nudismo? Haja contradição.

Talvez a crise de intimidade seja moda, mas ela continua a mostrar seus sintomas na web. A revista semanal suíça ‘L’Hebdo’, por exemplo, na última eleição para o parlamento enviou seus repórteres para viverem (mesmo) com os candidatos, vários deles. Era dormir & acordar. Tudo foi registrado no site/blog ‘Blog & Breakfast’, de sucesso instantâneo. Tanto que, na próxima eleição, em outubro, também será usado este ‘método’.

É assim, mesmo? Para conhecer o que um candidato pensa, se ele merece meu voto, é preciso *morar* com ele, radiografar até a sua alma? É a intimidade que está chegando ao fim, ou somos nós (isso inclui até os políticos) que estamos assustados com tanta exposição, nos escondendo a ponto de precisarem criar um ‘Big Brother’ político para descobrir quem colocar no poder?

Não acho que a intimidade se perdeu totalmente. Vejo, sim, que estamos bem perto de criar uma ‘falsa intimidade’, outra persona para sobreviver a tanta invasão - seja real, virtual, pública ou privada.

Alguns já aprenderam a lição, e mostram apenas o que os outros querem ver, mas se trancam a sete chaves quando o que está em jogo é sua verdade mais íntima. Como Renan Calheiros fez no Senado.

Eu avisei que a questão era esquizofrênica...

Escrito por Bruno Rodrigues às 16h13
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Bruno Rodrigues é:
*autor do livro "Webwriting - Redação & Informação para a Web" *consultor em informação para a mídia digital da Petrobras *instrutor de Webwriting e Arquitetura da Informação
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