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----- Sobre Bem e Mal -----
A seguir, a pedidos e para começar o mês de março, dois dos textos mais interessantes que publiquei no 'Comunique-se' nas últimas semanas, com comentários ao final sobre os retornos que tive... Vai do Papa ao 666! ;-)
Escrito por Bruno Rodrigues às 14h24
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----- O Papa analógico -----
Ao longo de minha adolescência, fiz parte de um dos movimentos moderninhos da Igreja Católica, ‘Encontros de Jovens com Cristo’. É uma pena que reste apenas uma vaga lembrança do que foram, no raiar dos anos 80, estes ‘Encontros’, como eram chamados carinhosamente.
Embalados ao som de Milton Nascimento e o Clube da Esquina, adolescentes como eu, os 'engajados' da época, viveram o finalzinho do sonho 'paz e amor' dos hippies ainda que em versão light, embotada por uma ditadura que também vivia seus últimos dias. 'O Sal da Terra', de Beto Guedes, era o nosso hino. Bons tempos.
Como toda história de adolescência, havia heróis e vilões. Quem nos guiava era o padre Spencer, jovem viajado e avançado para a época, que injetava conceitos como filosofia e sociologia na cabecinha de adolescentes doidos para mudar o mundo - mesmo que só um pouquinho. Spencer era o reflexo da Igreja de João Paulo II que começava a extasiar o mundo com seu sorriso e idéias avançadas. No colégio onde eu estudava - a sede dos ‘Encontros’ - Spencer, discípulo do 'Papa pop', era celebridade e merecia cada elogio.
Ratzinger era o vilão. Tal qual o Grão-Vizir Iznogud fazia com o Califa nas histórias em quadrinhos de Goscinny, o Cardeal Joseph Ratzinger, diziam, estaria minando as idéias avançadas do Papa Karol Wojtila. O que fazer? João Paulo II confiava em Ratzinger, que se transformava aos poucos em seu braço direito.
Eu tinha uma hipótese muito mais sombria: tal qual o Grão-Vizir, Ratzinger queria ser 'califa no lugar do Califa'. Teoria de adolescente?
Para piorar a situação, em 1984, o então Frei Leonardo Boff foi chamado ao Vaticano para receber um dos maiores puxões de orelha da história da Igreja. Boff estaria levando a Teologia da Libertação longe demais. No 'Encontro', foi uma revolta só. Como assim puxão de orelha, se a Teologia da Libertação fazia parte da nossa cartilha?
Mais uma vez, era Ratzinger que estava por trás de tudo! Presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, ele era o 'Olho' onipresente, rastreando a Igreja à procura de perigos. Quando descobri que a Congregação era a mesma que, um dia, havia sido a comandante suprema da Santa Inquisição, gelei. Leonardo Boff era o nosso Galileu Galilei, e já podia vê-lo prestes a queimar na fogueira.
Os anos passaram, Boff largou a batina e foi cuidar da vida, João Paulo II envelheceu, viajou o mundo inteiro e terminou seus dias conservador, exatamente como - pelo menos para mim - Ratzinger queria.
Quando, em 2005, a fumacinha branca saiu da chaminé da Capela Sistina e Ratzinger, com suas olheiras profundas e um sorriso sem graça, apareceu na janela do Vaticano, eu, adolescente dos anos 80, tive vontade de gritar 'É Iznogud! Agora ele é califa no lugar do Califa'! Ainda nos estranhamos, por mais que ele não saiba.
É claro que um dia eu, Ratzinger e a internet iríamos nos cruzar. Era inevitável. Foi na semana passada, quando, em sua mensagem de Natal, a 'Urbi et Orbi' o Papa quis alertar a humanidade que, embora cercados de tecnologia, não podemos ficar sem Deus. Não sei se foi ironia, crítica ou apenas um alerta em formato irregular, mas fato é que a mensagem nos foi passada como uma pergunta, não uma afirmação:
- Um salvador é necessário para uma humanidade que inventou comunicação interativa, que navega no oceano virtual da internet?
‘Como assim, Ratzinger, a Rede é Deus?’, pensei. Ou, como escrevi em uma de minhas últimas colunas, 666 é o número da internet? Estamos perdidos, então. Será que o nosso não-mais-tão-novo Papa, alienado do mundo digital, passará à História como o 'Papa analógico'? Inclusão digital nele!
É triste, mas hoje, ainda me recuperando de mais um daqueles momentos que insistem em provar que nada substitui o silêncio, eu me lembro do bom João Paulo II, nosso João de Deus, e do que ele disse sobre a Rede:
- A internet é uma das coisas maravilhosas que Deus colocou à nossa disposição para descobrir, usar e dar a conhecer.
Quem está certo? O Califa ou o Grão-Vizir? Ou o melhor seria o silêncio, mesmo?
Que Iznogud me perdoe, mas o adolescente que há em mim e que ouve 'O Sal da Terra' às alturas no iPod, insiste na melancolia, e de vez em quando se vê suspirando:
- Ah, como era pop o meu Papa...
COMENTÁRIO: Foi minha vingança pessoal contra uma Papa que... Bem, deixa pra lá! Mas ele terá o castigo que merece: em sua visita ao Brasil, Sandy & Júnior cantarão para Ratzinger! Não consigo imaginar tortura maior! ;-)
Escrito por Bruno Rodrigues às 14h23
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----- 666, o número da internet -----
Experimente: ao longo de uma semana, acompanhe os jornais com outros olhos. Conte quantas vezes a internet é apontada como terreno propício para o exercício do que há de pior no ser humano, do tráfico de drogas à pedofilia. No mínimo, a Rede é descrita como palco para novos costumes bizarros e curiosos, como flertar, ainda que à distância, uma ilustre desconhecida, ou passar dias imerso em uma comunidade virtual como o 'Second Life'.
Tenho a impressão de que, por pouco, sociedade e mídia não proclamam a internet como 'criação do demônio' e seitas mais radicais não queimam computadores e laptops em grandes fogueiras. Ao longe, observando tudo, estaria - em êxtase! - uma multidão de marmanjos, pais de meninos e adolescentes, defensores ferrenhos, entre outras coisas, de que 'lugar de homem é na rua'...
Esta visão estrábica da internet não surge na mídia e na cabeça dos pais à toa. É como se precisássemos de uma 'consciência coletiva' nos alertando sobre o perigo que o 'novo', ao mesmo tempo fascinante e ameaçador, oferece - uma versão adulta do Grilo Falante.
É tudo muito assustador: o pânico vai do comércio eletrônico ('vão roubar o número do meu cartão de crédito!') aos games ('meu filho não vai mais sair de casa!'), dos relacionamentos ('o que vale é olho no olho!') aos e-books ('preciso pegar nos livros que leio!'). Haja coragem e discernimento para não perder o bonde da história - é preciso confiar na Rede com um olho fechado e o outro bem aberto.
Muitos passam por isso quase todo o dia. Eu, que vivo de (e na) internet, me peguei outro dia numa encruzilhada daquelas.
Sempre fui defensor do uso que os adolescentes fazem do português na web, ao criarem novas palavras baseadas mais em seus sons e menos no que está no dicionário. O que não seria fonte de dor de cabeça para os professores, na minha opinião. Ou seja, o jovem saberia muito bem onde utilizar o 'vc' ou o 'você'. No Orkut, vale o novo; na redação da escola, o que Houaiss e Aurélio fazem questão de nos lembrar, sempre. Seria simples assim.
E foi, no início. Quando o MSN e os 'torpedos' ainda não faziam parte do dia-a-dia do adolescente - e da criança, também -, quando a atividade de se comunicar constantemente pela escrita pela Rede ainda era novidade, havia uma clara distinção do que era português e o que era 'da web'.
Outro dia, ao conversar com duas professoras de ensino médio, fiquei de queixo caído: agora é um Deus nos acuda. As provas vivem inundadas de 'vc's, e o mais delicado, elas me explicaram, é que - óbvio - não é de propósito... Mas, o que fazer se é este o português que crianças e jovens usam para se comunicar hoje em dia pela Rede? Dá agonia e uma profunda insegurança. Uma delas, à beira da aposentadoria, disse, brincando, ter saudades ‘de quando a única ameaça à língua era a gíria' - e nada afetava a escrita.
É hora de parar e pensar, então. No Brasil, a língua portuguesa já passou por mais de uma reforma. Por que 'pharmácia' virou 'farmácia'? Porque ninguém lia 'parmácia', oras. Até hoje me pergunto por quê 'caixa' não é 'caicha', ou vice-versa... Pela regra, apenas? Nosso 'cadê' está condenado a ser 'c-a-d-ê' por toda a eternidade, ou um dia escreveremos 'kd vc'?
A língua não retrata o que o povo fala? Ou o que a regra nos impõe?
Mas aí bate o medo do desconhecido, do descontrolado, do que até ontem era absurdo.
Arranquem rápido os computadores dos quartos dos filhos: à fogueira com eles, antes que seja tarde demais. Porque lugar de língua é no dicionário. Ou não?
COMENTÁRIO: Escrevi o texto sabendo que ia arrumar confusão, mas também não a-g-u-e-n-t-a-v-a mais matérias apontando a web como rainha do apocalipse, do mal, da perversão... Óbvio que me taxaram de defensor da ignorância e da destruição da língua portuguesa. Se isso é verdade, filhos, só o tempo dirá... ;-)
Escrito por Bruno Rodrigues às 14h23
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