QUANDO A TECNOLOGIA NÃO É ÚTIL
Quase não há tempo para respirar. Desde o início da era digital, é sempre assim: uma sucessão de novidades que não têm fim, e o pobre cidadão que se vire.
Mês após mês, os avanços tecnológicos só fazem nos surpreender, modificam nosso dia-a-dia e alteram nossa percepção do mundo. Até quando correremos como loucos para acompanhar o que acontece nos computadores, em nossa casa, no trabalho?
A resposta é: acostume-se. A avalanche de tecnologia que surgiu nos anos 80 e desembocou nos dias em que vivemos é muito superior ao que nossos pais e avós um dia passaram - e eles já acharam que era muito.
A necessidade de adaptação é a primeira característica do 'homem digitalis', definição que a amiga Risoleta Miranda, da produtora web Addcomm, não cansa de repetir, e com toda a razão. Mas o que pode parecer um clichê, o 'ficar para trás, na poeira do tempo', não é o principal recado que a era digital nos deixa.
Para acompanhar a velocidade enlouquecida de transformações, que vai da web ao iPod, da tv de plasma ao palm, não é preciso estar aberto a tudo o que surge de novo, mas sim usar um bom filtro: o senso crítico.
Será que você precisa, de fato, que toda inovação tecnológica faça parte da sua rotina? Ela realmente vai melhorar sua qualidade de vida?
No terreno da economia há um conceito que pode nos ajudar nesta tarefa de usar o senso crítico - a produtividade. Quanto mais uma tecnologia nos auxilia a realizar em menos tempo uma tarefa, mais produtiva ela é.
Agora inverta o ponto de vista: pense em prazer, não em trabalho. Quanto mais tempo uma tecnologia permite sobrar ao final da realização de uma tarefa, mais tempo existe para o nosso prazer.
Em suma, ter um celular de última geração mais facilita a sua vida ou atrapalha? O que deveria ser um aparelho criado para uma tarefa simples - ligar para alguém - acaba irritando, e não ajudando, ao oferecer tantas funções? Então opte por um modelo simples, e abra espaço para o que você, de fato, precisa em um celular.
Eu, por exemplo, uso palms há anos, mas sempre escolho o modelo mais simples. No momento, é o Z22, um dos últimos lançamentos, mas bem simplinho. Por quê? Só preciso do básico dele, o cruzamento de uma agenda com um computador de bolso. Meu dia-a-dia não pede mais nada. E olhe que eu não sossego!
Também tenho um iPod, mas ele só me serve porque comprei uma caixinha de som daquelas bem pequenas, criadas especialmente para mp3 players. O motivo? Eu só ouço o iPod em casa, e nunca com headphone. O que é essencial para muitos, carregar o IPod no bolso, na rua, não faz parte da minha realidade.
Nos Estados Unidos, a Universidade de Stanford proibiu laptops em sala de aula. Mas não era moderno usá-los? Pergunte a um professor o que é dar aula para uma classe em que os alunos a 'assistem' olhando para a tela o tempo todo. Pois Stanford encomendou uma pesquisa e chegou à conclusão que a interação entre aluno e professor caía tremendamente entre os usuários de laptop, e, portanto, o rendimento geral da turma. Sobrava tempo para navegar na web e usar o messenger, e faltava tempo para assistir à aula.
Sabe os podcasts, arquivos de áudio apresentados como 'programas de rádio', até pouco tempo o mais novo passo na tecnologia da comunicação? Eu, que adoro podcasts, ando frustrado. Assino vários, através do iTunes, programa da Apple que permite, entre outras coisas, assiná-los. Porém, desde o início do ano, é gritante a quantidade de empresas e marcas que lançaram seus programas com estardalhaço e agora simplesmente os abandonaram. Muitos não passaram da terceira edição. Será, então, que o podcast é realmente útil e prazeroso para quem deveria ser seu público?
Não se deixe levar pelo que pedem de você. Por muitas vezes, ao rejeitar - ou simplesmente criticar - uma inovação tecnológica, somos taxados de retrógrados. Mas não ligue. O grande defeito do 'homem digitalis' é implorar para ser absorvido pela massa, e neste quesito a tecnologia é o grande ímã e a grande armadilha.
Se nós conseguimos evoluir de 'sapiens' para 'digitalis', foi graças à inteligência, a mesma que produz tecnologia. Acredito que ambas possam viver em perfeita harmonia.