C e b o l @ - Todas as camadas do webwriting


Escrito por Bruno Rodrigues às 10h52
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Escrito por Bruno Rodrigues às 15h22
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Amigos,

Desde 2009 meu blog mudou-se para o endereço www.bruno-rodrigues.blog.br.

Neste momento, estou migrando o conteúdo deste blog para o novo.

Aguardo vocês no novo endereço, então! :-)

Bruno Rodrigues



Escrito por Bruno Rodrigues às 18h15
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----- Prosa com Vint Cerf, do Google -----

Foto: UFMG (Filipe Chaves)     Ex-aluno, amigo e profissional brilhante, Itamar Rigueira Jr, da UFMG, aproveitou a passagem por Belo Horizonte do vice-presidente do GoogleVint Cerf, para fazer uma entrevista rápida e interessantíssima com aquele que também é apontado um dos 'pais da internet' - com toda a razão; Cerf é criador do protocolo TCP/IP.

Itamar me pediu duas perguntas para serem incluídas na entrevista - as respostas estão abaixo. A primeira pergunta foi respondida durante a própria entrevista; a segunda é inédita.  

Em tempo: para ler a entrevista em português (e na íntegra), vale conhecer o caprichado 'Boletim da UFMG'. 

1) In the context of searching, the word, pure and simple, has more capacity of communication/indexation than the sentence. Do we need to learn again to write so as to have information found quickly?
 
I don't think that we need to learn to write again but it has been demonstrated that choice of words can have an impact on our ability to find relevant references (web sites) or to select relevant ads (eg. with AdWords or AdSense). More deeply, if we are able to codify the meaning of words in searchable representations, we might be able to find relevant material that does not contain the search words but rather words that mean the "same" thing. Searching databases will need semantic indexing of databases (see Tim Berners-Lee's "data linking" ideas).
 
2) What's the most absurd among false stories about Google's activities and plans you ever heard?

There is a lot of misunderstanding of Googles intention's for Book Search and about Google's temporary retention of search data. The company is working to document and explain what information is used to associate users with advertisements, how long this data is preserved, what is done with the data. I think most concerns about Google can be resolved with more thorough reporting of our practices and facilitating enhanced user control of generic interest profiles used to identify interest patterns. Google far less interested in individuals than it is in cataloging patterns of behavior.


Escrito por Bruno Rodrigues às 16h42
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----- Nota Dez para os ‘Anos Zero’ (1ª parte) -----

  

Faltam apenas seis meses para o final da primeira década do século, perceberam? Lá se vão os ‘anos zero’ e com ele a segunda década da web – o tempo passa depressa, mas é bom colocar os anos em slow motion (e em perspectiva) para notar como a década foi de vital importância para a sobrevivência da web. Na virada para este século, amigos, a Rede quase foi para o beleléu – lembra do ‘estouro da bolha?’ - e muito do nosso futuro (agora presente) perigou não acontecer.

  

Sendo assim, é melhor esquecer estes tempos, então? Não acho; os ‘anos zero’ foram mais que isso, eles foram a demonstração de que uma nova mídia havia chegado para encurtar de vez a distância entre pessoas, empresas e instituições. A web sobreviveu e amadureceu, tornando-se a imagem mais próxima de ‘futuro fantástico’ com que visionários como Arthur C. Clarke e Isaac Asimov sonhavam.

  

Por que não recordar estes anos dando-lhes a devida importância, então? Cito, a seguir - e continuo a listá-los na próxima terça-feira -, os fatos mais marcantes da década na área da Comunicação Digital. Vale concordar, discordar e principalmente acrescentar, ok?

  

1. O estouro da bolha

  

Por pouco, quase foi tudo pelo ralo: no início de 2000 os investidores esperavam colher os frutos dos milhões e milhões de dólares que haviam investido ao longo de cinco anos em projetos web tão absurdos quanto caros, e ficou claro que eles haviam superestimado uma mídia que mal havia saído do berço. Era preciso dar tempo ao tempo. Embora fosse parte do ciclo natural de tentativas que cerca qualquer tecnologia revolucionária, essa fase varreria do mapa mais da metade das empresas web. Em dezembro de 2003, a Amazon fecharia, pela primeira vez, um ano no azul – como haviam previsto - e mostraria que a web, passada a tempestade, havia sobrevivido e valia a pena voltar a investir no futuro.

  

2. O surgimento dos blogs....

  

Colocar na mão do usuário o poder de publicar conteúdo por conta própria, em um estalar de dedos, foi como mágica. Daí por diante, o que jornais e revistas vendiam apenas como um ‘diário virtual de adolescente’ – dá até vontade de rir, hoje em dia, lembrar do preconceito – transformou-se em fonte de informação preciosa, de poder, de influência, de ameaça ao Jornalismo antes dele mesmo absorver a ferramenta. Hoje, grande parte dos blogs não tem cara de blogs de tão bons e sofisticados; em breve, todos se tornarão sites e o termo cairá em desuso.

  

3. ... e das redes sociais

 

Em 2005 surgia o conceito de Web 2.0 e com ele as redes sociais, a grande tendência que tomaria o mundo de assalto. Quem hoje não tem um perfil (nem que seja abandonado) no Orkut? Quem, justamente por causa do Orkut, não aprendeu a lidar com sites de relacionamento e compartilhamento de conteúdo como Delicious, MySpace, Flickr, LinkedIn ou Facebook? O caçula da turma, Twitter, não teria sido tão facilmente absorvido pela mídia e pelos usuários não fossem nossas experiências anteriores.

  

4. O vídeo

 

Falar em ‘convergência de mídias’ lá por 2001 parecia papo para boi dormir; a eterna promessa de uma web rápida e poderosa, em que poderíamos acessar texto, áudio, vídeo ao mesmo tempo parecia prestes a não se realizar. Mas a tecnologia (e a vontade das empresas em ganhar muito dinheiro) conspirou a nosso favor. Logo o YouTube tomaria a dianteira desta nova realidade e a imagem em movimento seria lugar comum na Rede - ‘como assim este site não tem vídeo?’. Melhor: todos nós passaríamos de espectadores a produtores de vídeo, o que mudaria a forma de produzir conteúdo audiovisual.

 

Na semana que vem: Música digital, ebooks e o jornal impresso na berlinda – e o que não deu certo ao longo da década. 

 



Escrito por Bruno Rodrigues às 16h47
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----- Difícil conselho aos mais jovens -----

Rodrigo (Galha), 'Catch Side'   Este mês completo 42 anos. Não sou exatamente um ancião, mas também não me vejo mais como um jovem rapaz que tem toda a vida pela frente. Muito já aprendi, muito há o que aprender. Sobre alguns assuntos, contudo, já posso falar com conhecimento de causa, e é sobre um destes o tema desta semana: as escolhas que fazemos ao longo da vida e o que os outros têm a ver (ou não) com isso.

Daqui a poucos dias, por exemplo, chegará às bancas a edição de março da revista 'InfoExame' na qual há uma entrevista comigo sobre a profissão de arquiteto da informação. Para quem é leitor desta coluna, não é novidade que, quando o assunto é conteúdo para a mídia digital, abraço a causa sem restrições. Mas, hoje em dia, quarentão, preciso pensar bastante no que vou dizer, porque serei ouvido por muita, muita gente - e boa parte destes leitores tem quase metade da minha idade.

Assim, por mais que Arquitetura da Informação seja uma das áreas a que dedico mais estudo e trabalho, não posso afirmar a jovens profissionais que esta atividade, bem, justifica uma profissão. Sem diminuir sua importância, a Arquitetura da Informação é uma área de conhecimento que compreende um conjunto de técnicas, mas que não tem fôlego para ir muito além disso. Repito: entre minhas atividades está a de arquiteto da informação, sou um apaixonado pela atividade e nela está a solução para problemas de organização e localização de conteúdo em ambientes digitais. Mas, não, não posso recomendar a ninguém que aposte todas as fichas em uma atividade que é capaz de dar sustento a um profissional de 20 e poucos anos, solteiro, mas que não é capaz, por exemplo, de garantir o orçamento de um homem de quarenta anos, com um filho adolescente, que paga a prestação de um bom apartamento. Profissão é sinônimo de carreira, e carreira supõe aumentos de salário progressivos e possibilidade de crescimento. Um arquiteto da informação pode virar, no máximo, chefe de arquitetos da informação. Há louváveis exceções - conheço várias - mas são exceções, não é a regra.

Sei que, na mesma matéria da ‘InfoExame', outros entrevistados dirão que arquiteto da informação é a 'profissão do futuro', que é para investir todas as fichas na área, o velho conjunto de clichês que compõem a pauta de quem quer dar força a um novo mercado. Difícil, mesmo, será estes mesmos profissionais entenderem que o meu objetivo com uma opinião tão incômoda é idêntico ao deles - mas há que ter responsabilidade quando pedem a você uma orientação, e que neste caso é preciso separar o joio do trigo e deixar o 'oba-oba' e o supostamente 'moderno' de lado.

No terreno dos conselhos, a situação é, às vezes, a inversa. Há dois anos, um aluno se me chamou a atenção em meu curso de Webwriting e Arquitetura da Informação. Ele estava retomando o curso de Comunicação Social e, enquanto as aulas não começavam, havia se inscrito no meu curso. A questão é que o rapaz era muitíssimo talentoso, um dos melhores que já haviam passado pelas minhas turmas. Decidi que iria ajudá-lo da forma que pudesse e, por sorte ou destino, uma das produtoras web de grande porte do Rio de Janeiro estava precisando de um estagiário. Meu aluno concorreu à vaga e pronto: lá ia ele rumo ao sucesso.

Deixa estar que eu sabia desde o início que ele fazia parte de uma banda e que ela estava prestes a decolar. Ele era o baterista e, pelo que parecia, todos no grupo levavam muito a sério o trabalho. Conversávamos sobre o assunto, mas sempre de forma enviesada; afinal, eu o estava ajudando a furar um mercado de trabalho.

Poucos meses depois, recebi um longo e-mail em que meu aluno pedia um conselho bem delicado. Prestes a renovar o estágio, ele estava em uma encruzilhada: a banda o absorvia cada vez mais e tudo indicava que ela ia estourar. A pergunta era óbvia: eu achava que ele devia largar o estágio e apostar de vez na banda?

Para quem não sabe, tenho um filho de 12 anos, dando os primeiros passos na adolescência, e não é difícil imaginar que engasguei. Ainda assim, lembrei de tudo o que havíamos conversado ao longo de tantos meses, e escrevi um dos e-mails mais sinceros da minha vida: aconselhei que ele se investisse na empreitada, e que, a qualquer momento, eu estaria ali, pronto a ajudá-lo novamente. E foi o que ele fez.

Na semana passada, o Rodrigo - ou Galha, seu apelido - me chamou pelo msn. Há duas semanas, a Catch Side, sua banda, tocou no Canecão, como parte da turnê nacional; pouco antes, eles haviam aparecido no 'VideoShow' - está na Globo.com para quem quiser comprovar - e o novo cd sai este mês. Mais do que respirar aliviado, fiquei muito, muito feliz. Da mesma forma, se algum dia eu encontrar alguém que seguiu meu conselho da 'InfoExame', notou que Arquitetura da Informação' é apenas mais uma ferramenta para ingressar com sucesso na área de Comunicação Digital e foi em frente, adquirir outros conhecimentos, também vou ficar tranquilo.

Aos (quase) 42 anos, percebo que, entre outras coisas, ficar mais velho não é saber qual conselho é o mais correto a dar, mas sim ter coragem de evitar todos os clichês e deixar o coração falar - o que queremos, tantas vezes, que os outros façam conosco.

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A próxima edição de meu curso 'Webwriting & Arquitetura da Informação' acontece em abril no Rio. Para quem deseja ficar por dentro dos segredos da redação online e da distribuição da informação na mídia digital, é uma boa dica! As inscrições podem ser feitas pelo e-mail extensao@facha.edu.br e outras informações podem ser obtidas pelo telefone 21 21023200 (ramal 4).

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Esta semana, o projeto 'Jornalistas da Web', que envolve site, grupo de discussão e eventos, completa nove anos de existência. Criado por Mario Cavalcanti, o 'JW' é, hoje, o maior patrimônio que o jornalismo online possui no Brasil. Para quem (ainda) não o conhece, o endereço é www.jornalistasdaweb.com.br. Parabéns, Mario e equipe!

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Gostaria de me seguir no Twitter? Espero você em twitter.com/brunorodrigues.



Escrito por Bruno Rodrigues às 18h29
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----- Por que tenho que pagar pelo meu jornal? -----

   (De minha coluna no 'Comunique-se')

Luís XVI deve ter se sentido assim. De um lado, os ventos da modernidade a soprar inclemente; do outro, o povo clamando por sensatez. No centro da questão, o dinheiro -sempre ele - a fazer a roda do tempo girar mais uma vez.

Estou pregando a Revolução? Nem é preciso, amigos. Fato é que, à luz dos acontecimentos dos últimos anos, os jornais impressos observam em pânico, da sacada de um Versalhes digital, o perigo se aproximar. E se movimentam na penumbra, em passos minuciosamente estudados, cuidando para não disparar um novo ‘se não tem pão, sirvam brioches’. É feia a coisa.

De um lado, uma questão ancestral, que nos remete à era moderna do jornalismo: antes da web, não havia opção se eu quisesse consumir informação confiável. Era preciso pagar para ter acesso à apuração bem feita, ao texto claro e inteligente. Pagávamos sem pensar, e ao longo das últimas cinco décadas virou fato do dia-a-dia do cidadão do mundo inteiro comprar um jornal. Vai-se à banca de manhã cedo ou o exemplar é depositado na porta de casa, antes do café da manhã. Em troca, dinheiro, e ponto final.

Do outro lado, as versões online dos jornais surgiram com a web, começando a rivalizar com as de papel. Tentativas foram feitas para se cobrar pelo conteúdo, mas o público chiou. Vieram os blogs e os jornais foram obrigados, com o tempo, a entendê-los e até a contá-los como ferramenta de trabalho. A notícia, agora, circulava em bilhões de minúsculos pedaços, em uma realidade virtual em que o controle da informação começava a escorrer por entre os dedos.

No momento em que as grandes empresas começavam a pensar ainda aturdidas, em um novo modelo de negócios em que a notícia ao menos pudesse encontrar nas grifes jornalísticas – e em tudo o que isso significa – uma base sólida que justificasse ser trocada por dinheiro, veio a Crise. E tudo começou a ruir.

Graves questões vêm à tona. Se não estamos mais no alvorecer do ciberespaço, mas no fim da infância da web, e neste cenário encontro, sim, informação confiável espalhada pelos mil cantos da Rede, por que tenho que pagar pelo meu jornal? Afinal – e aí ressurge a principal questão, vinda do início da era do jornal pago – é a junção notícia/publicidade que mantém um jornal vivo e um produto nas prateleiras, não é? Foi desta troca que surgiu o modelo de negócios de sucesso que sobrevive até hoje.

Mas, pare e pense: se um produto quer ser visto, por que *eu* devo pagar por um veículo que ‘transporta’ este anúncio e tantos outros? Se o produto quer visibilidade, ora bolas, que o jornal me seja oferecido de graça! O anunciante paga o espaço ao jornal – aí sem faz sentido – mas ele me chega gratuitamente.

Ao longo de muito tempo, havia um conformismo (bastante incômodo) que justificava que se pagasse por um impresso: por mais que fizesse sentido a troca jornal/anunciante, não havia jeito para que se tivesse acesso à notícia de qualidade, era preciso pagar. Se não havia saída, era no próprio bolso que tínhamos que mexer, mesmo.

Em 2009, estas e outras questões não apenas vêm à tona, mas começam a incomodar seriamente – a todos, a bem da verdade, e não apenas a jornais e anunciantes:

. Já é possível um leitor confiar no que lê na internet, diariamente?
. Teria chegado o momento de reproduzir gratuitamente na Rede tudo o que se paga para ler no jornal, e desistir de recriar na web o modelo do impresso?
. No impresso, será que as empresas jornalísticas sobreviveriam sem as assinaturas, seria possível bancar a qualidade da notícia apenas com os valores dos anúncios?
. Este novo modelo daria certo com empresas jornalísticas de médio e pequeno porte?
. E, ponto mais preocupante, como sobreviveria o jornalista neste cenário?

Tantas questões, quanta incerteza. Por mais que saibamos que momentos de mudança pedem criatividade e jogo de cintura, será que ainda há tempo para negociar com quem que clama por novos paradigmas (o leitor), ou só resta, mesmo, um fim trágico para o jornal impresso e pago?



Escrito por Bruno Rodrigues às 22h00
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----- Sobre redes e estrelas -----

  CRIS ALMEIDA, blogueira da Totalmedia, de São Paulo, fez uma entrevista nota dez comigo [abaixo].

Fiquei orgulhoso - emocionado, até - com a forma com que ela encerra o texto:

'Antigamente, os profetas liam as estrelas. Bruno Rodrigues lê as redes'.

Bem, com essa ganhei o ano, né? ;-)

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Bruno Rodrigues, um pioneiro em webwriting

15 de Dezembro de 2008 @ 13:47 por Cristina Almeida

Na semana passada tive a oportunidade de conversar com Bruno Rodrigues, o pioneiro de webwriting no Brasil. Nosso bate-papo nos fez voltar ao ano de 1995, quando iniciou seu percurso como pesquisador das técnicas de linguagem para sites, época em que ele ainda se dividia entre as atividades de redator publicitário, jornalista e assessor de imprensa. A partir de então, Bruno passou a ser referência para os profissionais da área da informática, comunicação e marketing. Foi ele o primeiro a perceber que o usuário da internet era mais exigente do que se poderia esperar.

Nos primórdios da rede, ele e sua esposa começaram a se interessar sobre como os textos em sites deveriam ser escritos. Mas a curiosidade não se limitava às pesquisas em sedes estrangeiras, pois Bruno passou a participar de grupos de discussão sobre o tema. Nasciam ali as primeiras dicas sobre como escrever na web. Esse fato lhe pareceu singular, pois todos estavam apenas começando. Contudo, já pensavam as novas formas de linguagem.

O que era apenas um interesse pessoal, mais tarde lhe renderia frutos. A Petrobras procurava um especialista que pudesse gerenciar a reformulação do conteúdo de seu site. O nome de Bruno foi sugerido e ele foi contratado para o trabalho pelo período de 5-6 meses. Tornou-se um arquiteto da informação e até hoje presta serviços àquela empresa.

Com tanta experiência e pesquisas acumuladas, e sem conhecer algum profissional na mesma área, a idéia de escrever um livro foi conseqüência natural. Em 2000 publicou a primeira obra em língua portuguesa, e a terceira no mundo sobre redação e informação para web. Tornar-se colunista da revista WebWorld foi o passo seguinte (atualmente ele escreve para a Webinsider). O reconhecimento pelo conjunto de seu trabalho veio com a inserção do verbete webwriting, no famoso Dicionário de Comunicação de Carlos Rabaça e Gustavo Barbosa.

Jornalismo x Webwriting

Indaguei sobre a resistência das pessoas, especialmente os profissionais do jornalismo, em relação à nova técnica de comunicação na web. Bruno me explicou que "jornalismo é apuração; redação é a conseqüência da apuração". E acrescentou: "webwriting é gestão da informação e, assim, um experto em webwriting deverá ser capaz de disponibilizá-la entre as várias camadas de um site. Para um webwriter, o ponto principal é a persuasão e isso o que faz com que o usuário continue a navegação. A redação faz parte desse raciocínio".

O especialista esclareceu que embora a redação seja imprescindível para o jornalismo, webwriting é uma atividade mais natural para profissionais de letras ou biblioteconomia, porque eles sabem lidar com o texto, além de gerenciar a informação - que não é só o texto - mas inclui áudio, vídeo, ícones, flashes etc.. E concluiu, "o redator é amante da frase, do estilo; o redator digital é amante da palavra".

Um dos assuntos tratados em seu livro (Webwriting, Redação & Informação para a web, ed. Brasport) é a navegabilidade. Uma das principais funções do redator web é agir como guia de turismo dos sites. O trabalho do redator é sugerir, apontar, e até recomendar outros sites que possam expandir uma informação. Contudo, uma das diferenças entre as redes na língua inglesa e portuguesa, é que todo o tipo de informação pode ser acessada na primeira língua, como se não houvesse receio de compartilhar conhecimento. No Brasil, temas de importância ainda parecem ser de acesso restrito, não confiável.

Conteúdo como produto

Bruno ponderou que a tradição inglesa e francesa é expandir informação. Além disso, a seu ver, americanos são, por natureza, empreendedores. "Mídia digital é inovação e, assim, é preciso ter coragem para abrir caminhos nessa área. Daí a relutância do brasileiro em dar o primeiro passo nesse sentido. Em geral, as pessoas ficam esperando para ver o que vai acontecer".

Com tantas novas possibilidades, o usuário foi se tornando cada vez mais exigente. E, segundo o especialista, é ele o responsável pelas mudanças na web. "Quem estava por trás dos sites passou a ouvi-los através das áreas - Fale conosco. As sugestões, reclamações é que foram direcionando o que hoje visualizamos em termos de conteúdo na rede. Daí a razão por que grandes empresas como Ponto Frio, Americanas etc. passaram a comprar conteúdo para seus sites, pois precisavam de profissionais que estivessem familiarizados com esse universo".

Uma pergunta que sempre está no ar é se a web substituirá as mídias impressas. Bruno lembrou que neste momento há uma aura de crise, o que fez com que as pessoas passassem a pensar muito em custos. Isso explicaria o fato do fechamento de algumas revistas no seu formato convencional, mas que mantiveram seu conteúdo na web, alocando os profissionais de suas redações.

"Se compararmos os preços absurdos de uma gráfica e aqueles de manutenção de um site, entenderemos porque até revistas de endo-marketing deixaram de ser impressas e passaram a estar disponíveis nos sites intranet das empresas. Essas modificações representam que é preciso abrir o olho para as possibilidades que essa nova onda pode nos oferecer".

Apesar dessa realidade, Bruno nada contra a corrente dos céticos que vivem alardeando que mídias impressas estão com os dias contados e diz que há uma diferença básica entre o conteúdo online e o conteúdo impresso. "O primeiro deve ser fragmentado; o segundo, pode e deve ser mais aprofundado. Por isso, a tendência é que coexistam sempre". E acrescenta: "em 2008 o jornalismo online já experimentou de tudo: blogs, pod casts, microblogs etc.. A grande pergunta é, para onde vamos a partir de agora?".

Personal web publisher
O especialista finalizou nosso bate-papo profetizando o surgimento de um novo tipo de profissional, ao qual ele chamou de personal web publisher: "seria um profissional com anos de janela no jornalismo, portanto, acostumado a escolher conteúdos relevantes, mas também com capacidade para entender a web e saber o que determinado público precisa".

Antigamente, os profetas liam as estrelas. Bruno Rodrigues lê as redes.



Escrito por Bruno Rodrigues às 21h02
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----- Google, Life & Disney -----

  Há muito tempo, em uma praia não muito distante...

A revista americana 'Life' liberou seu acervo fotográfico para ser explorado via Google Images

Que tal esta foto de Walt Disney e sua equipe em visita ao Rio de Janeiro em 1941, mais precisamente à Barra da Tijuca?

É de cair o queixo.



Escrito por Bruno Rodrigues às 11h35
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--- Quando ou não interagir ---

   Não basta ser pai...

O 'G1' publicou neste final de semana uma matéria que tem a mim e ao meu filho, Breno - que completa 12 anos hoje! :-) -, como dois dos personagens centrais.

Escrita pela talentosíssima Alícia Uchôa, a matéria 'Blogs e sites viram ferramentas de talentos mirins' mostra como 'graças a internet, crianças expressam talentos em arte, música e moda'.

Questionado sobre o preconceito que ainda existe com os games, fiz questão de dizer que, para deixar a desconfiança de lado, 'o que os pais precisam é ter tempo com os filhos e participar'.

Espero que surta efeito - fiz a minha parte! ;-)

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(do 'Comunique-se')

Por que somos obrigado a interagir o tempo todo?

Se há conceitos capazes de dar nó na cabeça de qualquer um, estes são interatividade, interação e relacionamento.

Não é tudo a mesma coisa? Pelo contrário – são conceitos bem diferentes e que definem bastante o papel do usuário no mundo online.

No centro de todos estes conceitos está a idéia de contato. Interatividade cria a *possibilidade* de contato, mas sem intenção de continuidade. O caixa automático do seu banco é um bom exemplo. Você chega, digita a senha, retira o dinheiro, faz um depósito, checa o saldo e pronto – acabou ali.

Interação é quando a interatividade é usada para criar dependência – benéfica, na maioria das vezes. Quando você se loga ao site do banco, você está em seu espaço, e ele pode ser alterado, modificado, trabalhado. A idéia de contato se transforma em rotina.

E relacionamento? É quando interferimos na própria ferramenta; ao sugerir ao banco novos canais, por exemplo – atendimento online em tempo real, quem sabe? Neste caso,
desejo saber quando e como o sistema será implantado. Se minha sugestão foi recusada, quero um retorno – às vezes um e-mail basta – explicando o porquê. Tudo isso é relacionamento. A idéia de contato evolui para comprometimento.

E você, com isso? Afinal, se interatividade é opcional, e relacionamento, idem, por que cada vez mais nos tentam empurrar interação?

Se quero armazenar fotos, é preciso virar íntimo do Flickr e sempre fico em dúvida sobre quem está se beneficiando mais, eu ou o site, que passa não só a ter minhas fotos, mas meus dados, também. Sobre Orkut, Facebook e outras redes sociais, nem se fala. Para muitos, a vida, agora, passa por ali. O destaque do momento nas redes é o microformato, uma maneira de publicar dados pessoais apenas uma vez, e eles serem transpostos para qualquer rede social, sem necessidade de incluir tudo de novo. Mais interação, impossível.

Se você acha que a questão pára por aí, está enganado. A próxima tecnologia do momento – ou da semana – é o BD-Live, desenvolvida pela Sony. A idéia é mudar (mais uma vez?) a experiência de ver um filme em casa. Antes de tudo, é claro, é preciso um *outro* aparelho de DVD, especial para BD-Live – óbvio, infelizmente. Mas, ontem mesmo, meu próximo projeto não deveria ser comprar um aparelho para os novíssimos discos Blu-Ray? Deixa pra lá.

Fato é que, com a tecnologia BD-Live, é possível assistir, da poltrona de casa, a um filme junto com espectadores do outro lado da cidade ou do planeta – basta, é claro, que no aparelho de DVD esteja passando o mesmo filme. Assim, é possível enviar, via TV, mensagens para os outros espectadores e, durante a sessão, bater um campeonato de trivia com direitos a prêmios – wallpapers, screensavers, etc. E, last but not least, enviar vídeos que se sobrepõem ao filme que está passando, com mensagens do tipo ‘cara, esta cena está o máximo!’.

Isto posto, vem a pergunta: dai-me paciência, será que até no conforto do lar, aconchegado na minha poltrona, quieto no meu canto, eu tenho que ser sociável o tempo todo, participar de mais uma experiência de interação?

Respire fundo e me responda: há um limite para tanta interação ou estamos presenciando algo irreversível?



Escrito por Bruno Rodrigues às 16h10
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----- 'Walt & El Grupo' -----

         [OFF TOPIC] Em meados de 1941, os Estados Unidos ainda não tinham entrado na 2a Guerra, o que não significava, contudo, que o país pudesse ignorar o que estava acontecendo. As exportações americanas iam de mal a pior, já que a Europa estava em frangalhos. Resultado: a economia teve que se virar, e nem a indústria cinematográfica pôde ficar parada. Para evitar que as contas não caíssem no vermelho, Walt Disney passou a aceitar tudo quanto é tipo de proposta - e a mais estranha veio do próprio Governo dos EUA.

Preocupado com a possível influência do nazismo sobre os povos 'neutros' da América do Sul, os EUA tinham implantado a famosa 'Política de Boa Vizinhança'. Diversos artistas, em especial atores e diretores, eram despachados para 'south of the border', com o intuito de reforçar a importância da democracia e dos valores dos Aliados. Foi um fracasso: ou os sul-americanos ignoravam a passagem das celebridades ou as rejeitavam - isso quando não havia má vontade de quem vinha. Por isso, nos primeiros meses de 1941, Walt Disney foi chamado às pressas para uma conversa.

Aquela seria a mais ousada e cara e tentativa do Governo: Disney viajaria por vários países da América do Sul em missão diplomática e artística. Levaria uma equipe de artistas consigo, que voltaria com material para produzir um ou dois desenhos animados, sem a obrigação de fazer sucesso nos cinemas - apenas propaganda implícita. Fossem outros tempos, Disney sairia esbravejando da sala; mas eram tempos difíceis e, além da Guerra, seus estúdios estavam prestes a entrar em greve - fato que seria divisor de águas na história da empresa e da vida do próprio Disney, ele próprio admitiria anos depois.

Por isso, em agosto de 1941, Walt Disney e uma pequena equipe de artistas embarcou em uma viagem de três meses para a então distante e exótica América do Sul, em tour por quatro países: Brasil, Argentina, Peru e Chile, com uma rápida passagem pelo Uruguai.

A viagem, um sucesso estrondoso sob o ponto de vista de propaganda - a comitiva foi recebida e acompanhada por multidões por onde passava - e artisticamente transformadora - Mary Blair, uma das artistas da equipe, por exemplo, criou seu estilo marcante a partir daí - nunca tinha sido tratada com a devida importância nem pelos próprios estúdios Disney, por mais que houvesse material de sobra como registro. Foi então que entrou em cena Diane Disney Miller, filha de Walt que, através da The Walt Disney Foundation, decidiu bancar duas empreitadas: o documentário 'Walt & El Grupo', dirigido por Ted Thomas, e um livro ainda inédito, do historiador JB Kaufmann.

Vi 'Walt & El Grupo' ontem, e é uma obra-prima, e não apenas sob o ponto de vista de um fã da Disney. É, de longe, um dos filmes mais sensíveis que já assisti. A fotografia é luxuriante, a direção funciona quando é preciso, a edição (talvez o ponto mais alto do filme) é de cair o queixo, e até os efeitos especiais (fotos com profundidade e imagens antigas que de forma mágica se transformam em atuais) são brilhantes.

Quase 1/3 do filme é dedicado ao Brasil. Aliás, o filme parece ter sido feito para os brasileiros, tanto é a quantidade de entrevistados daqui (famosos ou não) e as músicas escolhidas (do 'Tabuleiro da Baiana' a 'Aquarela do Brasil' com Mart'nália, fantástica). Como moro no Rio, no bairro do Flamengo, foi uma experiência única 'esbarrar' com os cenários do filme e determinados pontos da minha vizinhança, como o Hotel Glória (onde 'El Grupo' ficou hospedado e surgiu a denominação da trupe), o Palácio do Catete (onde Disney se encontrou com Getúlio Vargas), o Pão de Açúcar (que tanto deslumbrou a equipe) e o Cassino da Urca, de certa maneira um ponto 'mítico' do filme, que aparece diversas vezes, seja em desenho, em filmes de 1941 ou mesmo hoje, em tristes escombros.

O Rio de Janeiro fascinou tanto os integrantes de 'El Grupo' que eles saíram daqui determinados a 'não gostar de Buenos Aires'. Ainda que as imagens da capital argentina sejam lindas (como são as de todas as cidades mostradas no filme), há um certo desprezo da trupe com a Argentina ('descobri a tão falada melancolia argentina, e lá repensei várias vezes o porquê de estar viva', chega a dizer, sarcástica, uma das artistas, em carta à família). O incômodo não pára por aí: é tratado com delicioso deboche a descoberta de que, ainda hoje, os portenhos, jovens ou velhos, acham que Walt Disney foi congelado após a morte (o que é desmentido nos créditos do filme com o mesmo tom irônico).

Em Santiago do Chile, Disney é recebido por mais uma multidão (comum a todos os países por onde passa), mas se surpreende com a recepção de dezenas de crianças que o homenageiam em um cinema. É, talvez, a foto mais significativa do filme: Walt em pé, de terno e gravata, cercado por um mar de criança sentadas, sorridentes e vestidas de uniforme branco. Inesquecível.

Se há um mote para o filme é a 'saída pela esquerda' para a greve dos estúdios (é claro), mas também há uma outra mensagem, quase silenciosa: a imensa saudade de maridos, esposas e filhos (então crianças) pelos pais que estavam tão longe (ainda mais para a época).

Diane Disney Miller pontua o filme, e mostra que herdou o carisma do pai. Seu olhar diz tudo. Em uma das cenas finais, ela pergunta 'se meus pais trouxeram presentes?' e mostra, feliz da vida, duas bonecas brasileiras.

Para os brasileiros, vale repetir, o filme é um presente, e fica claro que 'El Grupo' amou mesmo foi o Brasil. Os outros países foram passagem e aprendizagem - definitiva para alguns, como Mary Blair -, mas não marcou tanto a memória do grupo.

Para mim, foi bom reencontrar amigos na tela, como John Canemaker, JB Kauffman, Kevin Blair (filho de Mary) e Dider Ghez (ex-Disney que morou no Brasil).

A única escorregadela: no finalzinho, quando na tela passam imagens e textos sobre o que aconteceu com cada um do 'El Grupo' após a viagem, na legenda em português o brinquedo dos parques Disney 'it's a small world' (concebido visualmente pro Mary Blair) é chamado de 'para ser feliz' (uma confusão entre música e atração do parque). Mas, tudo bem.

Na platéia, muitos vips em área reservada: alguns entrevistados no filme, outros filhos e netos destes, todos visivelmente emocionados. Quando as luzes se acenderam, abriu-se um espaço para perguntas (soube-se que ainda não há planos de exibição em grande circuito nos EUA, nem programação para sair em DVD, mas duvido que a The Walt Disney Foundation não o faça). Ted estava feliz da vida e Kuniko - séria quando quieta e muito sorridente quando abordada - observava tudo, deslumbrada.

Como foi como 'disney experience'? Por conta das dezenas e dezenas de imagens de Walt Disney, filmes absurdamente bem recuperados, de que eu jamais tinha visto um fotograma sequer, nunca senti Walt tão perto, tão vivo, tão palpável. Estava ali a alegria, o espanto, a preocupação, o carisma de um Walt Disney relativamente jovem, aos 40 anos, muito antes da televisão e da Disneyland.



Escrito por Bruno Rodrigues às 17h46
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----- As 39 pistas -----

       As ferramentas estavam lá há tempos, em anos que hoje podem ser contados nos dedos de uma mão, apenas, ou em longas décadas. Fato é que, após tanto tempo colocado no centro das atenções do apocalipse cultural, sim, o livro sobreviveu.

Se foi difícil? Uma pedreira, sem exageros. Leve em conta um mundo em constante recessão desde a primeira crise do petróleo, nos 70, ameaçando aprisionar o mercado editorial na literatura ‘difícil’.

Nem a propagação dos bestsellers - que na virada para os 80 alçou editoras americanas ao mainstream -, nem os livros-evento, como ‘O Nome da Rosa’, serviram para que a arte de contar histórias em papel pudesse se estabilizar.

E então veio a internet. Aquela que viria a se alimentar do clichê ‘o livro de papel irá acabar?’ tinha mais o que fazer, e passou ao largo do Armagedon que tanto se anunciava. Em silêncio, apenas esperou o tempo passar, acrescentando com trabalho silencioso o que a tão temida mídia digital poderia ajudar.

Tecnologia? Inovação? Novos formatos? Qual nada. O que o admirável mundo novo da web trouxe ao livro - sabe-se hoje no emblemático ano de 2008 - não foi a técnica de recriar formatos, mas a magia de aproximar histórias de pessoas.

‘Harry Potter’, legítimo filho literário da era digital, apenas abriu caminho. O que seria a série de J.K. Rowling se não fosse a internet? Não fossem os fóruns criados por adolescentes no final dos já distantes anos 90, a América não abraçaria tão rápido o bruxinho inglês. Não fosse a web, ‘O Senhor dos Anéis’ não renasceria dos porões dos 60, galgando em pouco tempo a escadaria rumo a Hollywood, onde ‘Harry Potter’ também se preparava para criar vida.

Se não era segredo a fórmula livro & cinema, por que a exceção? Por que demorou tanto tempo para que séries literárias virassem certeza de lucro descomunal? A resposta: faltava entender os adolescentes, que desde Spielberg & Lucas já demonstravam paixão por boas histórias. Faltava a eles um meio em que pudessem interagir, interferir, exigir, opinar. A web era uma questão de tempo, e o retorno da contação de histórias, em grande estilo e com nova roupagem, estava prestes a começar.

Afinal, um livro é uma história que é contada em papel ou uma história que se aproveita do papel para chegar até quem quer escutá-la? Por que uma história precisa ficar contida em um meio físico? Ao criador – escritor, apenas? – caberia a missão de inventar um grande arco por onde sua história poderá ser contada - que começa em um livro, vai ao cinema, recria-se em um game e permanece, também, na web.

O surgimento dos e-books, no raiar da era digital, assim como os audiolivros e a carona que estes tomaram com a internet, era apenas um sinal de que o livro apenas esperava que todas as mídias entendessem que o ato de contar história poderia ser muitíssimo mais que *escrever* uma história – era preciso expandi-la por todas as mídias, oferecer ao leitor – usuário? internauta? espectador? jogador? – a possibilidade de vivenciar ao máximo o universo desenhado pelo criador.

Nos Estados Unidos, espera-se para o próximo ano um crescimento como nunca se viu em vendas de e-books – grandes editoras como a Penguin e a Random House passam, agora, a ter como regra a publicação de seus livros em meios papel e digital. Não se vê mais a versão em e-book como capricho ou exceção. O motivo? Embora a Amazon guarde a sete chaves o número de Kindles – aparelhinho leitor de e-books – vendidos desde o lançamento, ano passado, o mercado aponta que o montante foi muito (muito) maior que o esperado. Com o Kindle, não apenas lê-se um livro – compram-se livros pelo aparelhinho, da rua, e nele armazenam-se dezenas deles.

As mesmas Penguin e a Random House não ignoram o conceito de ‘transmedia storytelling’ – o mix de mídias para se contar uma história – e já partem para o ataque. A participação em ‘mídias socias’ como MySpace e Facebook (onde os leitores se encontram) e a obrigação de existir sites oficiais dos autores (onde o autor e os leitores se encontram; já existem até produtoras oficiais deste sites, como a authorbytes.com) apenas nos mostram a ponta do iceberg: o ‘transmedia storytelling’ está só começando.

Este mês o mercado está com a respiração suspensa. Foi lançado no dia 9, nos Estados Unidos, pela mesma editora que nos apresentou ‘Harry Potter’, a série cross-media para adolescentes ‘As 39 Pistas’, um tripé de livros, card games e site que irá cercar os leitores por todos os lados. Para se chegar às tais ’39 pistas’ não basta ler os livros. Neles, há apenas 10 pistas. As 29 restantes estão espalhadas pelos cards e no site.

É hora de rever o conceito de ‘livro’. Em um futuro próximo – futuro? –, ele não seria somente uma das pontas da fantástica tarefa de se contar uma história?

No Brasil, não é diferente. Há diversos projetos de ‘contação cruzada de histórias’ – seria esta a melhor tradução? – prontos para sair do forno. Enquanto isso não acontece, o mercado nacional investe em outro formato, o audiolivro. Nomes conhecidos, como Nathália Timberg, lêem títulos conhecidos como ‘O Ano do Pensamento Mágico’. Seria esta a fórmula para o audiolivro decolar por aqui?

Com tanto por acontecer, o 'novo livro' colocaria em extinção a confraria dos que gostam de ler em papel – com início, meio e fim – porque gostam de ‘folheá-lo’ e ‘sentir seu cheiro’? Ou estes também podem ser apresentados ao início de uma nova era, muito mais ampla e satisfatória?

 



----- Ah, o tempo... :-) -----


É só piscar e pronto: três meses sem postar. Também, tanta coisa aconteceu! :-) Conto as novidades:


* Após 9 anos como Coordenador de Informação do site Petrobras - trabalho de que me orgulho muito, desde o início - e um ano de transição, sou agora Consultor de Informação para o projeto do novo Portal Corporativo da empresa - leia-se intranet -, que irá ao ar no final de 2009. Um desafio e tanto! Tenho que confessar que flertava com a possibilidade há alguns anos... ;-) Pudera: das 27 instituições para quem já prestei consultoria e ministrei treinamentos de Webwriting e Arquitetura da Informação nos últimos 8 anos - entre elas Presidência da República, TV Globo, Fiocruz e, mais recentemente, Embratel - em 99% delas o trabalho foi para... portais corporativos! Faz todo sentido, então, minha nova função, não é? :-)


* Já está nas livrarias desde maio - em especial nas online - o livro 'Internet - O Encontro de 2 Mundos', coletânea do grupo iMasters [na foto eu estou com Tiago Baeta, de microfone, o organizador da obra] com textos de 44 autores do mercado digital brasileiro sobre a web dos próximos anos. Contribuí com 'O que aprendi com a Encyclopaedia Galactica', uma crítica à aposta quase cega de todos nós na tecnologia como principal forma de armazenamento da informação. Não perca!


* Em novembro, como parte das comemorações dos 10 anos de minha coluna 'Webwriting' - que começou na 'Webworld, do grupo IDG, e está desde 2000 na 'Webinsider' - lanço um novo curso, 'Webwriting: Módulo Avançado'. Aguardem mais detalhes... Para quem já fez meu curso 'Webwriting & Arquitetura da Informação', que ministro há 8 anos, é 'sopa no mel'! :-)


* Falando em 'Webwriting & Arquitetura da Informação'... No próximo dia 09/09 inicio a próxima turma do Rio. Para informações, basta ligar para 21023200 (ramal 4) ou enviar um e-mail para extensao@facha.edu.br. Desde janeiro de 2000, já formei quase 1.500 alunos.


* Ah, sim! Há mais uma nova comunidade sobre Webwriting no Orkut - são duas, agora. Pretendo começar a participar ativamente de ambas. Não fique de fora!


* E, caso você queira ser meu follower no Twitter, vamos lá: twitter.com/brunorodrigues.


Até breve! :-)



Escrito por Bruno Rodrigues às 22h57
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----- Jornalismo: redação ou apuração? -----

E vamos que vamos: no próximo dia 17/06, inicio mais uma edição de meu curso 'Webwriting & Arquitetura da Informação' no Rio de Janeiro. Para mais informações, basta ligar para 21023200 (ramal 4) ou enviar um e-mail para extensao@facha.edu.br.


Enquanto isso, reproduzo aqui um texto recente de minha coluna no 'Comunique-se' que deu o que falar... Ao terminar de ler, não deixe de dar sua opinião!



JORNALISMO É REDAÇÃO OU APURAÇÃO?


A questão é antiga, e separa o joio do trigo, quem vive do passado de quem enxerga o futuro: Jornalismo, afinal, é redação ou apuração?


Sempre esbarro nesta questão – e olhe que minha área é a mídia digital! Mas há tempos já deu para perceber que a eterna questão das redações esfumaçadas sobrevive e chegou à era do Jornalismo Online. Infelizmente.


Papo vai, papo vem, em toda entrevista que fazem comigo – como a do novo portal Newwws.com.br (vale uma lida depois) – citam o Jornalismo como sinônimo de redação. Eu respiro fundo e corrijo a observação.


Para mim, é de uma profunda pobreza de espírito associar – diretamente, é claro – a atividade jornalística à redação. E é perigoso, também.


Não é todo mundo que escreve (e é publicado) que é jornalista. Alguma novidade até aí? Nenhuma. Mas, bem sabemos, esta é uma questão tão batida quanto mal-resolvida. E, portanto, tremendamente escorregadia.


Não há um redator empresarial, por exemplo, que não tenha passado pela clássica situação em que um gerente qualquer diz à queima-roupa que ‘se tivesse tempo, escreveria uma matéria’. Engolimos essa e outras mais, e vamos em frente.


Se ele poderia escrever? É claro que sim. Digo escrever, redigir. Mas pára por aí. Mesmo assim, poderia até sair um texto razoável. É exceção? Ah, sim, claro que é – mas longe de ser impossível um gerente produzir um bom texto.


Muito cuidado com o que valorizamos em nossas atividades! Um jornalista não é jornalista porque ele tem um bom texto.


Como eu disse à Newwws:


“(...) É o cúmulo, em pleno século 21, continuarmos a associar Jornalismo a “saber português”. (...) Assim como outros conhecimentos básicos, o “saber a língua” é essencial. Mas este é o feijão-com-arroz da atividade. O que faz do jornalista um profissional único é a capacidade de apuração; este, sim, é o conhecimento e a técnica que se aprende e desenvolve, e aquele que tem poder de transformar a sociedade. Se o jornalista continuar a focar apenas na redação, esta será uma atividade sem futuro (...)”.


Complementando que eu disse, Jornalismo é páreo, sim, para Medicina ou Direito, desde que o profissional assuma que o principal em sua profissão é o talento e a técnica da Apuração (coloquemos em letra maiúscula, mesmo, ela merece).


Não acredito na sobrevivência do Jornalismo como ‘fabriqunha de textos’. O texto jornalístico é a conseqüência, o pôr no papel o que foi apurado. E ponto final. O que faz do jornalista um profissional único e fundamental é a apuração. Estilo? Talento? Claro que são importantes, amigos, mas não vamos cair na armadilha do olhar para o umbigo, sempre.


Esta mesma visão eu tenho do Jornalismo Online que, para mim, é um conjunto de novas ferramentas para se apurar e divulgar uma informação. Definitivamente, Jornalismo Online não é sinônimo de Webwriting, minha área de pesquisa e dedicação diária. Texto deste lado, apuração do outro, seja na mídia impressa ou na digital. São como pai e filho, sempre respeitando a hierarquia, cada um sabendo o seu lugar.


Às vezes, penso que falta ao jornalista pensar em quão especial ele é. Seria uma questão de ego ou de bolso?



Escrito por Bruno Rodrigues às 15h19
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----- Indiana Jones & Speed Racer -----

 

Para quem, no pré-vestibular, comentava com o amigos que gostava de Steven Spielberg e costumava ouvir um sonoro 'quuueeemm?' [tá, lá se vão quase 25 anos], nada como o tempo... Passei quase duas décadas aguardando por mais uma aventura do professor de arqueologia mais famoso do cinema, e lá vamos nós: daqui a três semanas, estarei com minha esposa e meu filho em uma sala mais que lotada [com certeza] na estréia de 'Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal'. A revista inglesa 'Empire' criou uma edição de luxo [foto tirada pelo Breno] para a ocasião: um envelope vazado e fechado por um cinto de papelão, que contém duas edições; a primeira, que dá destaque ao filme, e a segunda, um belíssimo volume em papel especial, com fotos antológicas e textos escritos pelos próprios criadores da série - de Spielberg a George Lucas, de John Williams [compositor da trilha] a Frank Marshall e Kathleen Kennedy [os produtores]. Para quem é fã, é de cair o queixo.  

Já a foto acima me lembra a infância: é o Mach 5, carro-símbolo do desenho dos anos 60 [que passou aqui nos 70], 'Speed Racer'. A versão 'carne-osso-e-aço' [e muitos efeitos especiais], assim como 'Indiana Jones', estréia este mês. Dei de cara com o carro no hall da Petrobras, no Rio, onde trabalho. Confesso que babei! Ah, sim: o outro carro da foto, verde-musgo, é o patrocinado pela Petrobras, que também está no filme. O design não chega aos pés do lendário Mach 5, mas - vá lá - dá para o gasto.... ;-)

Bem, o que tudo isso tem a ver com Webwriting? Nada, ué! :-)))))))



Escrito por Bruno Rodrigues às 21h02
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----- Duas boas entrevistas -----

     Duas entrevistas muito bem feitas, nas quais tive prazer de falar profundamente sobre informação para a mídia digital - a primeira, para a agência de notícias 'Newwws' (do mesmo grupo que publica a revista 'Webdesign'), e a segunda para o podcast do 'Jornalistas da Web', o Papo JOL (para este, basta seguir o link).

ENTREVISTA 'NEWWWS'

1 – Vamos começar com aquele assunto de que falávamos. Existe uma idéia, quase teoria, de que não se deve escrever muito na internet, que as pessoas não gostam de ler em frente à tela. Ao mesmo tempo, algumas pessoas defendem que a linguagem coloquial e a rapidez na atualização do conteúdo estão empobrecendo o texto na internet. O que você acha desses dois assuntos? É possível melhorar a qualidade diminuindo a quantidade?

Há muitos clichês em mídia digital, assim como em qualquer outro área - é normal que isso aconteça. O 'escrever pouco na internet' é um deles. O ambiente digital é constituído de 'camadas de informação'. A segunda camada, ou seja, o texto principal de uma informação, aquele que vem após o acesso a um destaque de primeira página, exige a concisão, mas nada tem a ver com 'não se deve escrever muito' na Rede. O que ocorre é que, nesta camada, o visitante procura os aspectos básicos da informação. Se serão cinco ou dez linhas, é apenas conseqüência. O detalhamento da informação virá nas páginas subseqüentes. Muito desta técnica, que é resultado
de testes, baseia-se na necessidade, também, de que o visitante acesse camadas mais profundas, assim como conheça outros temas abordados no site. Só assim ele poderá virar 'cliente', ou seja, se cadastrar, que é o pote no final do arco-íris da web.

Sobre a rapidez de atualização como empobrecimento da língua, primeiro é preciso deixar claro que informação web não é sinônimo de notícia online; há que separar a última das restantes. Enquanto o jornalismo na Rede é caracterizado pela rapidez, isso não acontece nos outros tantos perfis de sites da internet.

Ainda assim, se a questão são os erros resultantes desta ‘pressa’ em dar notícias, é uma característica do meio, que irá se refinar ao longo dos anos. Não acho que será assim para sempre.

Quanto ao empobrecimento da língua na web, me vem sempre à cabeça uma frase definitiva: “A língua portuguesa está empobrecida, rígida, estratificada, falta sentido e beleza a ela. É preciso lhe dar plasticidade, refundi-la no tacho, distendê-la, trabalhá-la, dar-lhe músculos”.

É de Guimarães Rosa, escrita em 1946.

2 – Você acha que o público em geral já aceita bem sites jornalísticos que utilizam linguagem própria de internet, tipo “vc”, “tb”, e não colocam acentos nas palavras? Você vê um paradoxo entre o sucesso desses sites e a simplicidade deles?

Não vejo paradoxo. Isso não é uma distorção, é um fato. E não temos distanciamento histórico o bastante para saber se, de alguma forma, isso veio para ficar. Criaram uma Santa Inquisição para o Português na web, mas, assim como na primeira, a História há de julgá-la corretamente. 

3 – Existem regras definidas em webwriting para grupos de palavras, como aquelas ligadas a tempo (ontem, hoje, amanhã), ou o uso delas varia de acordo com os manuais de redação dos jornais?

O webwriting se preocupa com a palavra como elemento de acesso à informação, e não como um elo de encadeamentos para constituir uma mensagem. Costumo dizer que o redator tradicional é amante da frase, enquanto o gestor da informação digital é amante da palavra. A primeira gera idéias; a segunda profundidade. Na web, esse é o foco da palavra: representação/persuasão/acesso à informação. 

4 – Enquanto discute-se muito a suposta necessidade de cadeiras específicas nas faculdades de jornalismo – web, rádio, TV etc. – vemos jornalistas recém-formados, e até mais experientes, que não têm noções básicas da Língua Portuguesa. Você não acha que as escolas deveriam estar mais atentas ao que vem antes da especialização, ou seja, aos conhecimentos que são comuns a todos os jornalistas?

Acho, mas é o cúmulo, em pleno século XXI, continuarmos, no Brasil, a associar Jornalismo a ‘saber Português’. Jornalismo não é saber escrever, esta visão empobrece
terrivelmente a atividade jornalística. Como você bem colocou, assim como outros conhecimentos básicos, o ‘saber a língua’ é essencial, isso não se discute. Mas este é o feijão-com-arroz da atividade, sem ele não se vai a lugar nenhum. Porém, o que faz do jornalista um profissional único é a capacidade de *apuração*, este sim o conhecimento e a técnica que se aprende e desenvolve, e aquele que tem poder de transformar a sociedade. Escrever? Por Deus, é registrar o que foi apurado! Não vamos valorizar em excesso o que aprendemos desde a escola, e que faculdade nenhuma é capaz de ensinar (só aprimorar). Se o jornalista continuar a focar apenas na redação, esta é uma atividade que não tem futuro, ainda mais com a web e seu jornalismo participativo e colaborativo.



Escrito por Bruno Rodrigues às 15h11
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----- Sobre Jornalismo Online: entrevista & texto -----

  Para os leitores do último post deste blog não ficarem no vácuo: seguem a entrevista que a talentosíssima Bia Mansur fez comigo para o site 'Jornalistas da Web', por conta do evento 'O Mercado e o Ensino de Jornalismo Online' - promovido no final de fevereiro no Rio de Janeiro -, e o texto publicado no 'Comunique-se' naquela mesma semana, em que faço quase um desabafo sobre o que acho do mercado de jornalismo online versão 2008.

Leiam e vejam se concordam: alguém tem que fazer o trabalho sujo de vez em quando, certo? ;-)

Com a palavra, Bia Mansur: 

1) O que se espera do novo profissional da comunicação?

Curiosidade por todas as mídias, as tradicionais e a digital, e uma grande vocação para lidar com informação, seja em sua elaboração ou veiculação. Além disso, é preciso envolvimento: um profissional de Comunicação que não está 'imerso' na evolução das mídias não tem futuro.

2) Mas quem é este novo profissional da comunicação na realidade?

É quem pensa o contéudo como algo único, mas multifacetado. Por isso, sua missão é adaptar a informação às diferentes plataformas onde ela será veiculada. Atenção: chamo de conteúdo um texto institucional , um anúncio para tv ou uma campanha de marketing da web. É preciso entender que as plataformas se modificam e se sucedem - a missão do profissional de Comunicação, seja ele publicitário, jornalista ou de mídia digital, é enxergar o potencial de cada informação nestes ambientes, não apenas virar um expert no aspecto tecnológico de cada um deles. As tecnologias passam, a visão apurada é que fica.

3) Qual é o maior desafio para este profissional na era digital?

Entender que ninguém é pau para toda obra. Quando me formei, há mais de 20 anos, uma das grandes 'vantagens' vendidas sobre o profissional de Comunicação é que ele poderia circular facilmente em todos os ambientes de seu mercado de trabalho. Isso nunca foi exatamente verdade - seria tão fácil assim, qualquer um fazer o que um comunicólogo faz, seja qual for sua área? Essa visão desvaloriza nossa profissão. Ninguém faz tudo. É preciso especialização. O generalista me incomoda - é sempre aquele que diz que sabe de tudo um pouco, mas não sabe nada profundamente. Na mídia digital - ainda bem – valoriza-se cada vez mais o especialista. Isso é ótimo! A questão maior, contudo, é salarial. Se não se valoriza o nicho em que trabalha, o mercado tende a pagar pouco - é simples assim, as empresas são um espelho dos profissionais. Percebo que quem trabalha nesta área precisa se valorizar mais, fugir do 'sou pau para toda obra'.

4) No Brasil, são poucas as universidades que buscam diferenciar as grades e oferecer um programa específico para quem deseja se especializar em jornalismo online. O que se pode observar são projetos isolados, de professores conhecedores do assunto e alunos ávidos por conhecimento. Exemplo disso é o Gjol da UFBA. Como o estudante pode preencher esta lacuna? Especialização acadêmica ainda é um sonho distante, ou já existe alguma iniciativa no Brasil?

Ao contrário de muitos, não vejo o jornalismo online como, por exemplo, uma especialidade do curso de Comunicação, algo que tenha vindo para ficar, como Rádio & TV, Cinema, Jornalismo ou Publicidade. No máximo, vejo, em alguns anos, o JOL sendo absorvido por Jornalismo. Como Pós, o.k., mas aí é outra história, é pesquisa. Não aconselho ninguém a apostar todas as fichas em JOL como ganha-pão. É óbvio que eu gostaria de dizer o contrário. O trabalho que alguns profissionais desenvolvem, como o Marcos Palácios, da Facom da UFBA, é para se acompanhar de joelhos! Mas é pesquisa, área acadêmica, outro barato. A vertente acadêmica é algo muito importante e especial, não é para todos. Como mercado de trabalho, o JOL é muito reduzido. As especializações de mídia digital que vão rechear a conta do chefe de família de amanhã - e fazer com que ele/ela possa sustentá-la - não passam pelo JOL, com raríssimas exceções, como a dos portais, onde não cabe todo mundo. Pé no chão, gente! Os grandes salários em mídia digital estão nas áreas de mobile, em marketing digital das grandes empresas e nas agências de publicidade. 

5) Listas de discussão, sites específicos para jornalistas da web, seminários e debates com profissionais renomados não seriam a nova cara do ensino de JOL no Brasil?

São, em sua nova cara. Por isso estes fóruns estão sendo tão valorizados agora. A cena da mídia digital mudou e o JOL precisa acompanhá-la. Não dá mais para você usar o twitter e achar que por isso você é o máximo, e acreditar que é por aí que se pavimenta uma trajetória profissional. Olhe para o cliente. Veja se ele precisa disso. Veja se você precisa disso tudo. Separe joio do trigo. E, principalmente, tenha senso crítico. Deixar escapar um 'uau...' a cada nova tecnologia de informação que surge, nos torna, comunicólogos da mídia digital, um bando de carneirinhos. Alguém já teve coragem que fazer o caminho oposto, encarar os grandes da tecnologia e reclamar 'ô amigo, meu cliente, meu leitor, precisa é disso, não dessas miudezas, vamos parar de enrolar?' (risos).

6) A internet é um veículo novo se comparado a outros campos de atuação do jornalista como rádio, TV, jornal impresso. Inclusive, muitos profissionais que atuavam
nestes meios foram “sugados” por portais como G1, iG, Terra. Existe o perigo de se misturar as estações e fazer mais do mesmo? O Brasil tem efetivamente jornalismo online?

Há o risco da mistura, sim, mas é natural. Jornalismo é uma coisa só, sim, mas há as diferenças, e já ficou para trás quem acha que elas não são relevantes. O bom profissional de JOL, por exemplo, é aquele que abraça e persegue as mudanças. 

7) Muito se fala da convergência de mídias na internet. A cada dia são criadas novas ferramentas que ajudam na divulgação da notícia. Texto, foto e vídeo nunca
foram tão usados nos jornais online. Mas o jornalista sabe usar de forma satisfatória estes coringas? O conteúdo não acabaria se tornando mais uma opção de como adquirir a informação, e não de quanto se adquire de informação?

Exatamente. A tecnologia é forma, não conteúdo. Muito cuidado. O que permanece sempre, ao longo dos anos, é como a informação é construída. As novas tecnologias são belíssimas e muito úteis embalagens para o conteúdo, mas é ele a grande estrela. 

8) A internet tem contribuído para a rapidez com que o leitor adquire a notícia. Mas conceitos primários como objetividade, precisão e coesão não estariam se perdendo?

Se isso acontece, é culpa do profissional ou do veículo, não da tecnologia ou da mídia. 

9) Qual sua opinião sobre jornalismo colaborativo?
Blogs e câmeras digitais contribuíram para o perfil do internauta, aquele que consome notícia pela web e também quer fazer parte da apuração da notícia? Ou seria mais uma forma de estampar o nome numa página com altos índices de acesso, mal comparando às redes de relacionamento como o Orkut?

Adoro o jornalismo colaborativo. Ele mexe em como se faz o conteúdo, e isso é sensacional. Mas ele ainda está na primeira infância, aprendendo a segurar no cercadinho. Blogs & cia, sim, já estão mudando e vão mudar cada vez mais nosso mercado de trabalho. Mas, mesmo em 2008, não o levemos tão a sério, porque tudo isso corre o risco de virar um assunto risível, motivo de chacota se o colocarmos em um pedestal. Muitas iniciativas de colaboração não deram certo, os blogs começam a sair do período de modismo... Vamos aguardar. *Claro* que tudo isso veio para ficar, mas, por favor, vamos pegar leve... ;-)

10) Bruno, obviamente seu livro 'Webwriting - Pensando o texto para a mídia digital' (2000) contribuiu, e ainda contribui, para a formação da nova geração de jornalistas online. Você consegue distinguir diferenças marcantes entre o profissional de web na época do lançamento para o jornalista de agora?

Bem, primeiramente, naquela época os próprios colegas de profissão ainda questionavam se o texto para a web tinha suas peculiaridades... E eu, baseado em pesquisas, batia o pé e dizia que sim, claro! Daí surgiu o livro, o primeiro em língua portuguesa sobre o assunto. Ao lançar o segundo livro, em 2006, o cenário era bem diferente, assim como o conteúdo do livro, bem mais prático que o anterior. O assunto, então, já era considerado e respeitado há tempos - vide que 'webwriting' é verbete do 'Dicionário de Comunicação' desde 2002!

11) O que seria uma bibliografia ideal para quem busca se aprimorar na área de jornalismo online? (ou seria mais pertinente pedir uma lista de links interessantes?)

Os meus livros, o da Pollyana Ferrari e o da Luciana Moherdaui ainda continuam sendo a santíssima trindade brasileira (risos), mas também recomendo, e muito, 'Manual de Laboratório de Jornalismo na Internet', do Marcos Palacios e da Beatriz Ribas, e outro que saiu no ano passado, 'Os Jornais Podem Desaparecer?', de Philip Meyer.

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(do Comunique-se)

Jornalismo online: me engana que eu gosto

Sabe aquela cena absolutamente clichê em cinema, em que algo muito trágico acabou de ocorrer com o personagem principal da história e um amigo próximo ou parente tenta trazê-lo para a realidade, agarrando-o pelos ombros e gritando: ‘você precisa aceitar que isso aconteceu, você precisa!’.

Ontem à noite, ao participar no Rio de Janeiro – com transmissão via webcast para todo o Brasil – como palestrante do Seminário ‘O Mercado e O Ensino do Jornalismo Online’, promovido pelo site ‘Jornalistas da Web’, fiz o papel do que precisa trazer para o mundo real aqueles que querem tapar o sol com a peneira.

Para mim, não é tarefa fácil. Tenho vocação para bonzinho, sou visto como paciente, gosto de ver sempre o bom lado de tudo e quando o assunto é internet, minha tendência é falar e endeusar as vantagens da web. Mas há 1) um limite, 2) o lugar certo e 3) o público certo para minha persona ‘especialista em informação para a mídia digital’ agir.

Frente a frente a um público de jovens adultos, a maioria entre 20 e 30 anos, e também sabendo que estava falando, ainda que a distância, por um imenso público da mesma faixa etária espalhado pelo Brasil e pelo mundo, não era a hora, nem o lugar.

Minha missão, ali, como conhecedor do mercado e quarentão, era alertar o público, chamar atenção para o lado bom e o péssimo de um mercado que funciona igualzinho a qualquer outro, não é privilégio da Comunicação.

Para um auditório calado (e visivelmente incomodado), expliquei que existem dois aspectos no Jornalismo online: as características do trabalho e a situação do mercado. Sobre como o dia-a-dia do jornalista web funciona, vale a pena participar de seminários e listas de discussão, devorar livros sobre o tema e ouvir o que especialistas ao redor do planeta têm a dizer sobre uma área que ainda está em sua infância. Até aí, tudo é lindo, e é parte da rotina de quem deseja ficar em dia com um conhecimento que evolui a cada mês, literalmente.

Se deixar, fica-se congelado a vida inteira neste lado da história. Você faz graduação, mba, mestrado, doutorado e nunca encara o mercado de trabalho. São poucos, em mídia digital, que abraçam a vida acadêmica por vocação. Muitos têm – sinto dizer - é medo, mesmo.

Medo de encarar um mercado que, embora novo, é restrito no mundo inteiro. No Brasil, conta-se nos dedos os noticiosos online que periodicamente criam vagas – vagas, não uma vaga de vez em quando - que consigam absorver as centenas de recém-formados (ou até experientes) que as perseguem todo santo ano.

Além disso, a tendência, de 2006 para cá, é a fusão das redações tradicionais com as online, e neste processo todos são treinados a lidar com ferramentas de multimídia – edição de áudio e vídeo, utilização de publicadores, noções de webwriting, usabilidade e arquitetura da informação, orientação sobre blogs e criação de comunidades, lições de como lidar com o jornalismo participativo e outras ‘cositas más’.

A um público cada vez mais tenso e silencioso, toquei na ferida: dinheiro. Muitos dos que me ouviam serão, daqui a alguns anos, pais e mães de família, terão que pagar a escola do filho, a prestação da casa própria, o plano de saúde. Ninguém vive para sempre na casa dos pais e, para a maioria, morar sozinho é uma fase que dá e passa, naturalmente. E, todos sabem, as redações brasileiras não são exatamente o Eldorado em relação a salários. Fosse a realidade apenas das redações offline (enquanto elas ainda existem à parte), poderíamos ir em frente tranqüilamente, mas o mundo do jornalismo online brazuca paga mal, igualzinho ao que acontece com nossos irmãos mais velhos.

A saída? Perceber que o bom salário está 1) nas grandes agências de publicidade que, de dois anos para cá, incluíram a web como mídia lucrativa e, cada vez mais, contratam jornalistas online 2) na área de mobile, leia-se elaboração de conteúdo para celulares; e 3) na intranets das empresas (falo isso há anos), onde se paga muito bem.

Dei meu recado e passei a bola para o palestrante seguinte, quase podendo ‘tocar’ no silêncio do auditório. Fechei o papo dizendo que ‘passamos muito tempo falando do nosso filho feio e burro, é a hora de colocar na roda o filho bonito e inteligente’.

E lá fomos nós todos, palestrantes e platéia, animadíssimos, falar sobre o fantástico admirável mundo novo do Jornalismo online pelo resto da noite...

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Bruno Rodrigues é:
*autor do livro "Webwriting - Redação & Informação para a Web" *consultor em informação para a mídia digital da Petrobras *instrutor de Webwriting e Arquitetura da Informação
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